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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Rapto

Que sítio é este?
Aquele odor esquisito rodeia-a, invade-lhe as narinas, a boca, e quase a faz vomitar. Parece
mofo, mas é muito mais forte e nauseabundo.
Lentamente consegue reaver os sentidos, que pareciam ausentes em parte incerta, e olha
novamente à sua volta.
Nada. Apenas quatro paredes, uma lâmpada que ameaça apagar-se a qualquer instante, e uma
caixa. Ali, no fundo da sala. Imóvel, limpa, adornada com um laço cuja cor ela não consegue
distinguir desde o sítio onde está sentada. Para onde a trouxeram? E porque está uma câmara
apontada para ela?


O pior é não conseguir lembrar-se de como ali foi parar, ou melhor: lembra-se sim! Aquele
som... de um carro… Seguraram-na e taparam-lhe a boca e o nariz, e depois… Nada mais na sua
memória a ajuda.

Precisa levantar-se. Arrasta o corpo pela parede, levantando-se e ficando de pé, finalmente.
Maria caminha algo desengonçada, apoiada pela parede, até junto da sua única companhia: o
embrulho.
Senta-se, lentamente, tentando afastar o medo que a tomou por assalto e olha-o. O laço
parece ter sido feito com perfeição, tão descontextualizado do local onde está,
acondicionando o embrulho com perfeição.

Desembaraça o laço receosamente, desfazendo o embrulho que rodeia a caixa branca até que
o interior deixa de ser secreto. Um embrulho em papel pardo envolve algo. Gentilmente o
desembrulha e o seu coração pára!

Uma orelha sangrenta. A orelha esquerda do seu pai! Só pode ser dele. Todo o ar lhe sai dos
pulmões e o pânico regressa, ao mesmo tempo que os seus olhos se enchem de lágrimas e dor
quando lêem a mensagem escrita naquele pedaço de papel:

“Da próxima vez será o coração”

E é nesse mesmo instante que se abre a porta e uma voz profunda se dirige a Maria.
- Está na hora.

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