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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Prazer em conhecer-te

00:02

Não se ouve nada. Nada a não ser a respiração de quem está sedado, anestesiado, desligado. Dormem. Nem todos profundamente. Eu ainda estou acordado a olhar o tecto, a “pensar na vida”. Já é uma vida com algum tamanho, concluo. São muitas primaveras, verões e outras estações. Estou cansado de estar aqui, vivo. E já estou cansado há demasiado tempo e, por isso, convenci-me de que a minha hora tem que estar breve.


Vivi tempo demais aqui, neste plano. E acabei aqui. Onde é aqui? Aqui fica no hospital. Disseram-me que tinha de ser, que estou doente e que preciso de quem cuide de mim. Deve ser por isso que me enfiaram tanto tubo e porque ligaram estas máquinas com estes zumbidos terríveis e estas aberrações sonoras que apitam de segundo em segundo. Enerva-me isto. Porque não me deixaram em casa? Podia ter esperado por ela em minha casa. Há anos que a chamo, mas ela não me tem ouvido. Já são muitas noites a perguntar-lhe se ela está ali, comigo. Por vezes acho que está, mas não fala.

Na minha casa, lá na minha sala de estar, costumo sentar-me no meu cadeirão velho, sabes? e ponho-me a falar para ela. “Não achas que chega de falsa companhia? A companhia quer-se de forma presente e ruidosa. Se vais ficar calada, devo dizer-te que és muito estúpida. E logo eu que gostava tanto de te conhecer.” Mas ela fica sempre calada. Nunca foi capaz de me responder e isso sempre me causou angústia e tristeza. Porque eu até sei que ela já ali andou a cirandar. Mas nunca se mostrou presente.


00:27

Suponho que me resta dormir. Mas não tenho sono!

- Estás aí, hoje outra vez, não estás? Vieste ter aqui comigo para me ver, mas não me levas a passear. Logo eu que te chamo há tanto tempo…
- Estou aqui.
- Onde estás? Eu ouvi-te! – um alívio enorme percorre o meu ser. Tento sentar-me na cama, ignorando os tubos que me saem do corpo, olhando insistentemente à minha volta, mas não a consigo ver.
- Acalma-te. Recosta-te na tua cama calmamente, porque hoje eu não vou a mais lado nenhum.
Será que mais alguém a ouve? Vão transferir-me para a psiquiatria se me ouvem falar sozinho!
- Ninguém te vai transferir para lado nenhum. Acalma-te, já te disse. Só nós estamos aqui, agora. Ninguém nos irá ver ou ouvir.
- Menos mal… Pensei que ia ficar sempre na dúvida. Afinal, ouves-me. Mas nunca me respondeste. Isso é má educação, sabias?
- Não leves isso a peito, João. Se não te respondia era porque não estava na hora de te responder. Eu nunca falo com ninguém, és um privilegiado, podes acreditar. Nunca ninguém me viu à sua frente, e nunca ninguém recebeu a honra que tu recebes esta noite.
- Eu acredito em ti. Mas se nunca respondes, e hoje foi a hora de o fazeres, então quer dizer que hoje foi o meu último dia? É hoje que me levas contigo, por fim?... – algo em mim tremeu, pela primeira vez. Senti-me a duvidar, desde há muito tempo, e senti as primeiras sensações nervosas desde há muitas luas.
- Agora que me ouves é que tens medo? Afinal não és assim tão forte, e mesmo tu tremes e temes a minha presença. Mas não fiques triste: tenho esse efeito em toda a gente.
- Qual presença? Não te vejo! Não te mostras, apenas te fazes ouvir. Deixa-me ver-te antes… antes… antes de eu ir! – sinto algum frio agora. As minhas pernas estão a adormecer. Quase só consigo mover a minha cintura e braços, e estou assustado. Sou o que menos queria ser: um velho assustado! Assustado por ela. Onde está ela?


00:45

- Suponho que tens razão. No meio de todos os presentes que te dei hoje, o que é mais um? e tempo é algo que não me falta. Infelizmente não se pode dizer o mesmo de ti, não é? Olha para mim.
E ela mostrou-se. É perfeita. E sem dúvida que não veste de preto e não é o Diabo em figura de gente! Mas ela não precisa de saber isso.
- Muito gosto.
- Obrigado. Gostaste da tua última imagem?
- Bastante. Obrigado por atenderes o meu pedido. E obrigado por tanta noite de companhia, ainda que dissimulada.
- De nada. Foi um prazer ser tão desejada por alguém. Vamos?
- Só um momento, por favor. Deixa-me respirar pela última vez.


00:59


O som tornou-se longínquo. Está abafado. A máquina ao lado da minha cama mantém-se a apitar, mas desta vez em permanência, como se de um alarme se tratasse. Nada vejo, agora. Ela levou-me, e nada vejo. Não me sinto, agora. E deixo de ouvir seja o que for. Se calhar vou deixar de pensar a qualquer momento, mas não me sinto angustiado, nem estranho, nem nada. Não me sinto nada. Não consigo abrir os olhos, mas não me aflijo. Tanto pedi que me concederam. Pude partir. Morri de velho e de vontade. E conheci a Morte. Conheci-a. Ela levou-me, mas conheci-a.

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