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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Pecado

A aldeia estava calma. Típica aldeia isolada do mundo, dos males da civilização, a vida corria sem pressas, sem problemas de maior.

Era dia de confissão, e padre Joaquim preparava-se para dar início ao sacramento. Sabia de antemão que nada de extraordinário se iria passar àquela hora. A aldeia descansava depois do almoço, por isso não esperava qualquer pessoa. Mas era preciso prosseguir com o convencionado, e às duas horas saiu da sacristia para ouvir os pretensos pecados das almas que o pudessem, ainda assim, visitar.

Em frente ao altar, benzeu-se, proferiu uma curta oração e sentou-se no velho confessionário. A estrutura estava cansada dos anos que por ela passavam, e nem a tela deslizava convenientemente. Mesmo que padre Joaquim quisesse interromper a sua conversa com o penitente, teria que se levantar e sair da sua cadeira, também já mitigada pelo passar das estações. Mesmo com o peso dos anos, mantinha-se aprazível aos olhos de quem a mirasse. Aquela cor castanha, dada pelo verniz, dava-lhe um ar de dignidade próprio do local onde estava colocada. Aquele canto da igreja era fresco, junto ao altar da Virgem, perpendicular com os bancos onde os fiéis se sentavam para escutar a missa de Domingo.
Ao adro chegou um carro.
Lá dentro, Elisa, uma das freiras que habitavam no convento localizado não muito longe da aldeia, estacionava-o. Saiu, inspirou enquanto olhava à sua volta. Ninguém teria dado pela sua chegada, no entanto deteve-se frente à igreja.
O velhíssimo edifício mostrava-se sereno. Lá em cima, o velho sino tocava as badaladas das duas horas, mas ninguém ouvia ou prestava atenção.
Estava na hora, e Elisa seguiu, pé ante pé, para dentro da igreja. Benzendo-se, olhava a imagem do Salvador, mirando em seguida à sua volta, confirmando que o espaço estava vazio, excepção feita ao padre que esperava os fiéis para os escutar e, como mandam as regras, absolver.
Quase sem fazer qualquer barulho, dirigiu-se ao confessionário, mantendo os olhos fixos na velha estrutura, e lá chegada limitou-se a ajoelhar tentando ficar o mais confortável possível. Após uma respiração mais profunda, com uma calma condizente com a sua condição, iniciou.

- Perdoe-me, padre, porque pequei.
- Como pecaste, irmã?
- Quebrei o quinto mandamento.
Ao ouvi-la, o pároco tremeu. Sentiu que algo não lhe tinha soado bem “Ouvi mal”, pensou.
- Podes repetir, filha? Como assim?
- Quebrei o quinto mandamento, padre. O quinto mandamento é “não matarás”. E eu pequei, porque não cumpri com a Lei do Senhor.
A calma com que Elisa proferia aquelas palavras ainda conferiu maior perplexidade ao homem que a escutava, mais ainda que ao padre que desempenhava a função. Levantou-se da cadeira, pronto para confrontar a freira que estava ajoelhada do outro lado, mas o que encontrou deixou-o imóvel.
Elisa virou calmamente a sua cabeça, olhos fixos no padre. Calma como uma tarde de verão, baixou lentamente os braços, pegou no revólver e apontou-o ao pároco, sem se levantar, sem pestanejar sequer. Inspirou, e simplesmente manteve a arma apontada e pediu:

- Padre, por favor. Ainda não terminei a minha confissão. Sente-se novamente, por favor.
- Elisa, que fazes, filha?!
- Confesso-lhe os meus pecados, senhor padre. Podemos continuar?

Lentamente, Padre Joaquim regressou à sua cadeira, limpou o suor. Benzeu-se, em seguida, e fechou os olhos. Como se conseguisse visualizar a cena, Elisa descansou-o.

- Não tenha medo, padre Joaquim. Não lhe quero causar qualquer dano, mas preciso que me ouça e me deixe confessar o meu pecado até ao fim. Apenas isso.
- Muito bem, Elisa. Prossegue.

Nunca em tantos anos Padre Joaquim temera tanto pela sua vida. Rezou em silêncio, respirou fundo tentando acalmar os incessantes nervos, e apoiou a cabeça na sua mão. Colocou o seu terço na mão esquerda, enquanto se preparou para ouvir Elisa.
E ela prosseguiu.

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