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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Dispara

"Então é assim que vai ser." - pensou

Tinham atado as suas mãos e vendado os seus olhos, pouco antes de o obrigar a joelhar. Típica posição de execução.
Não havia volta. Tinha perdido. 

Ao longe chegava o som dos carros em trânsito contínuo na auto-estrada, cujas luzes sobressaíam da paisagem à sua direita. Mas ele não os conseguia ver agora. 
Estava estranhamente calmo, considerando o que o aguardava. Talvez fosse o facto de nada poder fazer para evitar o destino o tivesse acalmado. José já tinha para si que assim seria o fim de tudo.

Simon estava de pé, em frente ao carro. Bloqueava parte da luz que emanava dos faróis e acariciava a pistola que ia cumprir o seu propósito. Ia custar matá-lo, mas ordens são ordens e ordens não se questionam por mais grotescas que sejam e despidas de sentido. Era o seu trabalho. Era a sua posição na cadeia. Era pago para fazer o que lhe pediam sem fazer perguntas. Normalmente não perguntava "porquês" porque não conhecia os alvos da sua arma. Mas agora era diferente. Tinha sido especificamente escolhido para este "trabalho". E não era por acaso.
Que patrão testaria a lealdade de alguém de uma forma tão fria? Matar o seu irmão era desumano, mesmo que ele merecesse a morte. E José não merecia. Nada tinha feito senão estar no sítio errado à hora certa. E nestas coisas dos timings, de nada vale argumentar que não foi de propósito.

José virava a sua cabeça de forma nervosa, agora. Talvez tivesse acordado da calma letárgica em que estava envolvido há instantes. 
- Simon? És tu, hermano?
- Sou eu, José. 
- Ainda temos tempo de mudar isto, Simon! Por favor, mi hermano! Ouve-me! 
- Não posso. - calma e serenamente lhe falava. De forma automática - Não posso.
- Simon! Tira-me a venda, por favor! Olha-me nos olhos, pelo menos - chorava - fala comigo olhos nos olhos, cabrón!
- Para quê? Ordens são ordens. Sabias o preço. Agora está na altura de cobrar. Chega de conversa.

Puxou o cão. Encostou o cano à têmpora do seu irmão mais velho.
- Vaya con Dios, hermano.

Disparou. Sob o olhar atento do seu superior, disparou. Sem pestanejar, sem reagir, sem rancores. 
Limpou o sangue dos sapatos com um lenço branco que retirou do bolso do irmão, agora caído, e guardou-o em seguida. Movimento contínuo, guardou a pistola também, e virou-lhe costas.
Tinha passado no seu exame final com distinção. Sem sentir. Sem temer. Sem fraquejar.

- Estás pronto, chicharrito - estas palavras eram como uma medalha, e ditas pelo Chefe eram mais valiosas que ouro. Começava agora. Não havia como voltar disto.

O teste final tinha terminado. Estava pronto.


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