Translate

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Corredor da Morte

Aqui dentro chamam-me morto. Porque a morte é a minha mais absoluta certeza.
Lá fora chamam-me assassino. Porque com toda a certeza matei.

Dizem que o facto de não saber quando chega a hora me irá fazer sofrer. Até agora, e ao fim de tanto tempo, tal coisa não aconteceu. Não sofro, não penso, não me perco nesses pensamentos sentimentais.
Sentimentos são coisas. Eu não me prendo a coisas. Não lhes ligo. Não perco muito tempo a pensar em coisas, muito menos sentimentos.



Matei porque precisava de matar. Para acalmar uma indomável ânsia que nasceu comigo quando os meus pulmões experimentaram inspirar pela primeira vez.
Não posso dizer que tivesse sido muito amado pela minha mãe, e nunca conheci o meu pai.
Precisava de algo que me preenchesse os tempos mortos, e senti que a única forma seria matar o tempo que ia morrer com a morte.

Cresci e fiz-me homem. Cresci e tornei-me mestre assassino.
Anos passaram até que conseguissem perceber que era eu quem consumia vidas alheias. Não me preocupei com quem eram aquelas pessoas. Podiam ter família, podiam ter uma vida preenchida ou, simplesmente, podiam ser seres sem vontade de viver. Não sei. Nunca me interessou. Eram (e foram) meras presas que eu precisei caçar,
                                                        desfigurar,
                                                                          esventrar,
                                                                                          sangrar,
                                                                                                       destruir
e retirar da minha presença.
Nunca me achei Deus. Nunca quis ser mais do que aquilo que sou. Não sou júri, nem juiz, nem carrasco. Sou apenas. Existo para me acalmar as vontades de matar.
Apenas conheci essa vida. Perdi a conta às almas que roubei. Não consegui precisar à policia quantos foram, quais as faces, quais as razões.

"Animal!" chamaram-me.
"Anormal!" catalogaram-me.
"Assassino!" classificaram-me.

E eu nunca me importei. Para que haveria de importar-me?
Aqui é assim. Aqui morre-se por matar. E eu vou morrer. Quando? Não sei. Porque me é indiferente.

É-me indiferente.

Sem comentários:

Enviar um comentário