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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Toca-me uma e outra vez

Sabe tão bem quando me tocas.

Sou mais mulher por sentir o teu toque na minha pele. Todos os meus recantos te pertencem, e estremecem de cada vez que nos colamos um ao outro.

As tuas mãos são tão… suaves.
A forma como me estimulas de cada vez que te deixo descer até ao meu mais profundo é algo, certamente, pecaminoso. Não há outra palavra! É pecado o que me fazes! Mas eu amo todo e qualquer toque que me ofereças. E amo pecar contigo…

Transpiração

O suor escorre.

Fico sempre assim. Fatigada. Saciada. Enamorada. De cada vez que nos juntamos no prazer sinto-me fatigada, saciada e muito enamorada.
Não preciso de nada mais que não seja deitar a minha cabeça no teu peito e relaxar. Deixar-me relaxar por longos momentos. Apenas descansar enrolada no teu abraço e esquecer-me de tudo o resto que está lá fora. Tudo o que possa estar fora deste quarto é irrelevante, pois nada mais importa a não ser a tua presença aqui, comigo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Acabou-se

Gasto.

Gasto o meu tempo, o meu suor, o meu sangue. Tudo por ti.
Deixo-te escorraçar a bondade que ainda me restava do meu íntimo, para deixar regressar o meu pior lado, o meu alter-ego destrutivo. E estou farto de gastar. Cansei-me de desperdiçar quem sou com quem apenas me pisa e destrói dia após dia, beijo após beijo, foda após foda.
E chega de ser fodido, chega de ser delapidado.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Dispara

"Então é assim que vai ser." - pensou

Tinham atado as suas mãos e vendado os seus olhos, pouco antes de o obrigar a joelhar. Típica posição de execução.
Não havia volta. Tinha perdido. 

Ao longe chegava o som dos carros em trânsito contínuo na auto-estrada, cujas luzes sobressaíam da paisagem à sua direita. Mas ele não os conseguia ver agora. 
Estava estranhamente calmo, considerando o que o aguardava. Talvez fosse o facto de nada poder fazer para evitar o destino o tivesse acalmado. José já tinha para si que assim seria o fim de tudo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Prazer em conhecer-te

00:02

Não se ouve nada. Nada a não ser a respiração de quem está sedado, anestesiado, desligado. Dormem. Nem todos profundamente. Eu ainda estou acordado a olhar o tecto, a “pensar na vida”. Já é uma vida com algum tamanho, concluo. São muitas primaveras, verões e outras estações. Estou cansado de estar aqui, vivo. E já estou cansado há demasiado tempo e, por isso, convenci-me de que a minha hora tem que estar breve.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Para de me foder

Para de me foder.


Estou cansado que me fodas constantemente.
Nem são fodas boas, porque não desfazemos camas, nem nos enrolamos em lençóis, nem fugimos para nenhum canto para satisfazer desejo nem tesão.

Tu fodes-me de cada vez que te atravessas na minha luz e não me deixas receber a energia que emana da Estrela, e estou algo farto dessa merda, percebes? O meu Sol é bloqueado pela tua estupidez, de tal forma que muitas vezes apetece-me apagar-te da minha vida, com a mesma facilidade que se apaga um traço mal desenhado num papel.
Para de me foder.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Partida

As coisas são diferentes vistas daqui.
A perspetiva muda radicalmente, e isso agrada-me de uma forma que me pacifica. Não tenho mais que correr, sofrer, pensar, decidir. Tudo isso deixou de fazer sentido, agora.
Inspiro, apesar de não sentir os meus pulmões. O meu movimento, a minha expressão começou a mudar porque me sinto calmo, porque me sinto leve e sem prisões. Nunca mais as sentirei, e acabou toda aquela noção de que não ia a lado algum. Terminou o pesadelo, mas não sei ainda se entrei num sonho.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Rapto

Que sítio é este?
Aquele odor esquisito rodeia-a, invade-lhe as narinas, a boca, e quase a faz vomitar. Parece
mofo, mas é muito mais forte e nauseabundo.
Lentamente consegue reaver os sentidos, que pareciam ausentes em parte incerta, e olha
novamente à sua volta.
Nada. Apenas quatro paredes, uma lâmpada que ameaça apagar-se a qualquer instante, e uma
caixa. Ali, no fundo da sala. Imóvel, limpa, adornada com um laço cuja cor ela não consegue
distinguir desde o sítio onde está sentada. Para onde a trouxeram? E porque está uma câmara
apontada para ela?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Corredor da Morte

Aqui dentro chamam-me morto. Porque a morte é a minha mais absoluta certeza.
Lá fora chamam-me assassino. Porque com toda a certeza matei.

Dizem que o facto de não saber quando chega a hora me irá fazer sofrer. Até agora, e ao fim de tanto tempo, tal coisa não aconteceu. Não sofro, não penso, não me perco nesses pensamentos sentimentais.
Sentimentos são coisas. Eu não me prendo a coisas. Não lhes ligo. Não perco muito tempo a pensar em coisas, muito menos sentimentos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Rio que flui

Vieste ao (meu) mundo de forma tão inesperada que nem tempo tive de pensar.
Tenho em mim todo o medo que possa conceber. Medo de te perder, de te magoar sem querer, de não conseguir ajudar-te quando precises, de não poder cuidar de ti como mereces e precisas.

Tenho medos. Tenho amor.
Ambos fluem em mim com tanta força como a nascente que brota na serra e transforma em rio. Um rio que flui.
Um rio de amor e medos. E o rio, os medos, o amor, todos desaguam em ti, meu anjo.

Não sabia que isto seria assim.
Nunca imaginei que a saudade pudesse ser avassaladora como agora a conheço.
Jamais poderia conceber que irias mudar o meu mundo para sempre, e de forma tão graciosa quanto impetuosa.

Assim é amar-te, de forma altruísta, da única maneira que o meu ser foi educado a fazer, e ainda para mais quando o destino desse carinho e dessa ausência de egoísmo, és tu.
Meu pequeno Anjo. Meu adorável pedaço de mim.

Sei que irás evoluir, e temo o dia em que possas chegar perto de mim e me digas "não preciso mais de ti, agora."
Que farei eu nesse momento? Suplicar? Aceitar? Evoluir, como tu?
E quando eu não estiver mais junto de ti? Nem à distância de um telefonema? Como vais TU fazer, meu pequeno mundo?
Aperta-me a alma, o coração, tudo me é dor só de pensar nesse dia...
Mas, não. Não vou pensar nisso, não agora, pois ainda agora me surges nos braços, tão pequeno e desprotegido.
E, assim queira o Alto, muitos anos se perfilam de companhia, amor, protecção e alegria sem limites.

E como me sinto abençoado por te segurar aqui, e sorrir para ti. Um sorriso tão rasgado que quase choro de tanta alegria e comoção.

És a minha bênção, a minha vida, o meu propósito.
Sou completo por te ter comigo, nos meus braços, enquanto dormes, meu querido tesouro...

Minha vida, meu filho, meu eterno filho.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Pecado

A aldeia estava calma. Típica aldeia isolada do mundo, dos males da civilização, a vida corria sem pressas, sem problemas de maior.

Era dia de confissão, e padre Joaquim preparava-se para dar início ao sacramento. Sabia de antemão que nada de extraordinário se iria passar àquela hora. A aldeia descansava depois do almoço, por isso não esperava qualquer pessoa. Mas era preciso prosseguir com o convencionado, e às duas horas saiu da sacristia para ouvir os pretensos pecados das almas que o pudessem, ainda assim, visitar.

Em frente ao altar, benzeu-se, proferiu uma curta oração e sentou-se no velho confessionário. A estrutura estava cansada dos anos que por ela passavam, e nem a tela deslizava convenientemente. Mesmo que padre Joaquim quisesse interromper a sua conversa com o penitente, teria que se levantar e sair da sua cadeira, também já mitigada pelo passar das estações. Mesmo com o peso dos anos, mantinha-se aprazível aos olhos de quem a mirasse. Aquela cor castanha, dada pelo verniz, dava-lhe um ar de dignidade próprio do local onde estava colocada. Aquele canto da igreja era fresco, junto ao altar da Virgem, perpendicular com os bancos onde os fiéis se sentavam para escutar a missa de Domingo.
Ao adro chegou um carro.
Lá dentro, Elisa, uma das freiras que habitavam no convento localizado não muito longe da aldeia, estacionava-o. Saiu, inspirou enquanto olhava à sua volta. Ninguém teria dado pela sua chegada, no entanto deteve-se frente à igreja.
O velhíssimo edifício mostrava-se sereno. Lá em cima, o velho sino tocava as badaladas das duas horas, mas ninguém ouvia ou prestava atenção.
Estava na hora, e Elisa seguiu, pé ante pé, para dentro da igreja. Benzendo-se, olhava a imagem do Salvador, mirando em seguida à sua volta, confirmando que o espaço estava vazio, excepção feita ao padre que esperava os fiéis para os escutar e, como mandam as regras, absolver.
Quase sem fazer qualquer barulho, dirigiu-se ao confessionário, mantendo os olhos fixos na velha estrutura, e lá chegada limitou-se a ajoelhar tentando ficar o mais confortável possível. Após uma respiração mais profunda, com uma calma condizente com a sua condição, iniciou.

- Perdoe-me, padre, porque pequei.
- Como pecaste, irmã?
- Quebrei o quinto mandamento.
Ao ouvi-la, o pároco tremeu. Sentiu que algo não lhe tinha soado bem “Ouvi mal”, pensou.
- Podes repetir, filha? Como assim?
- Quebrei o quinto mandamento, padre. O quinto mandamento é “não matarás”. E eu pequei, porque não cumpri com a Lei do Senhor.
A calma com que Elisa proferia aquelas palavras ainda conferiu maior perplexidade ao homem que a escutava, mais ainda que ao padre que desempenhava a função. Levantou-se da cadeira, pronto para confrontar a freira que estava ajoelhada do outro lado, mas o que encontrou deixou-o imóvel.
Elisa virou calmamente a sua cabeça, olhos fixos no padre. Calma como uma tarde de verão, baixou lentamente os braços, pegou no revólver e apontou-o ao pároco, sem se levantar, sem pestanejar sequer. Inspirou, e simplesmente manteve a arma apontada e pediu:

- Padre, por favor. Ainda não terminei a minha confissão. Sente-se novamente, por favor.
- Elisa, que fazes, filha?!
- Confesso-lhe os meus pecados, senhor padre. Podemos continuar?

Lentamente, Padre Joaquim regressou à sua cadeira, limpou o suor. Benzeu-se, em seguida, e fechou os olhos. Como se conseguisse visualizar a cena, Elisa descansou-o.

- Não tenha medo, padre Joaquim. Não lhe quero causar qualquer dano, mas preciso que me ouça e me deixe confessar o meu pecado até ao fim. Apenas isso.
- Muito bem, Elisa. Prossegue.

Nunca em tantos anos Padre Joaquim temera tanto pela sua vida. Rezou em silêncio, respirou fundo tentando acalmar os incessantes nervos, e apoiou a cabeça na sua mão. Colocou o seu terço na mão esquerda, enquanto se preparou para ouvir Elisa.
E ela prosseguiu.