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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Resposta

Não consegui olhar para trás. Desculpa.

Sei-te num lugar escuro, agora. E não consigo olhar para ti assim. Sim, é verdade que choro por ti, por nós, mas acima de tudo choro por mim. Também mereço, percebes? Sofro por não ter conseguido amar-te mais, desejar-te mais, cuidar-te mais. E porque não conseguiste amar-me melhor, desejar-me melhor, cuidar-me melhor. É aí que reside a minha dor.

Onde julgas haver a luz que apregoas existir estava eu, sozinha mesmo estando ao teu lado. Chamas-lhe confortável, mas eu sei melhor que tu que essa defesa que crias não é mais que uma cortina de fumo onde o ar é irrespirável. Tu não conheces esse recanto melhor que eu, amor da minha vida.

Dizes que posso ir descansada. Que posso continuar, para não me preocupar contigo. Mas sei que mentes. Dizes que não me queres voltando para ti. Então porque choras assim? Se não me queres ao teu lado novamente, porque me chamas ainda e sempre? Mentes mais agora que nos dias que passámos juntos. Queres, a todo o custo, defender-te e ser forte, mas ambos somos fracos. Enfraquecidos pelos golpes que o amor nos desferiu, este nosso amor que nunca morre, apenas está moribundo.

Que não pense nas ausências presentes, nas palavras trocadas, nos suspiros em silêncio que trocámos à distância que ensurdecederam as nossas almas ao ponto de não mais ouvirem as preces da paixão. A quente paixão que será, para sempre, apenas nossa. A mesma que eu agora choro por ver perdida.

Angústia e saudade. Sinto-as como minhas da mesma forma que tu as sentes. Nem mais nem menos. Iguais.
Vivo angustiada por te sentir assim. Sinto uma saudade que não sei definir, muito menos por em palavras. Sei que não mais te terei nos braços que tanto amas, que o teu abraço não será o mesmo quando nos reencontrarmos. Sei que dentro de mim mora toda uma ausência que só tu poderias preencher mas que não podes satisfazer.

Não consigo olhar para trás. Desculpa.
Somos o espelho um do outro. Eternos amantes que não mais o poderão ser.

Choro sim. Choro por ti, por nós, mas choro mais por mim...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Não chores mais

Não chores mais.

Podes deixar-me aqui, sozinho, não faz mal. Eu consigo encaixar-me no escuro e permanecer sem incomodar mais ninguém. Não precisas olhar para trás nenhuma vez pois não me mexi. Nem um músculo se move em mim. Podes continuar descansada, pois não faz mal.

Não penses mais nas palavras trocadas, nos porquês sem respostas, nas ausências que só a presença sabe exprimir. Não é preciso perder tempo a contemplar o que poderia ter sido pois ambos sabemos que não será nada mais que aquilo que foi. E foi perfeito durante tanto tempo.

Não precisas voltar para trás. Eu não quero que voltes, que sintas pena ou angústia. Eu estou no escuro, mas prometo que aqui há mais luz que aí. No abraço da escuridão posso ver-te vezes sem conta e desabafar o que não tive coragem de te dizer no momento em que viraste costas e partiste. Aqui, no meu quarto sem janelas, posso dizer tudo aquilo que deveria ter dito mas que a tristeza não deixou sair.

Limpa a saudade dos teus olhos. São tão lindos, não precisas de os lavar com lágrimas. Eu também te sinto a falta, confia. Podia ter sido mas não foi. Mais uma vez o que poderia ter sido foi destruído pelo que afinal nunca deixou de ser.

Por isso, não chores mais.
Eu choro por nós dois. 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Nesse dia

Ainda me lembro da tua mão a segurar a minha.

Lembro-me que já não tinhas muita força, mas não desistias de a segurar com a que tinhas ainda dentro de ti. Custou-me muito ver-te assim. Debilitada, doente, em sofrimento. O sentimento de impotência comeu-me por dentro até ao ponto em que me vi obrigado a questionar os poderes que dizem ser todo-poderosos. Nesse dia deixei de acreditar em nada menos que a realidade.

Respiravas com muita dificuldade. Mas lutavas sempre e a todo o segundo. Apenas nós estávamos naquele quarto. Já não era o quarto da tua casa, mas um canto do hospital. Já não sabia como conseguias suportar os tubos, a medicação e o sofrimento que o teu corpo sofria sem tréguas. Apenas tu e eu na sala pouco iluminada por um candeeiro de luz amarela que te tinha trazido de casa a teu pedido. Nesse dia deixei de visitar hospitais por me trazerem de volta à realidade demasiado crua para eu enfrentar.

Não tenho fome, dizias-me. Eu pedia-te que comesses a sopa, pelo menos, que te ia ajudar a fortalecer. Não quero, respondeste-me. Preferi não insistir contigo por achar que não tinha esse direito. Pousei a tigela na pequena travessa e deixei-te por segundos para a entregar a uma das auxiliares naquele piso. Quando voltei para junto de ti estavas a sorrir, em paz e seguraste-me a minha mão de novo. Está na hora, disseste-me. Não soube arranjar forças ou jeitos para te responder. Comecei a chorar perdidamente e juntei a minha outra mão à tua. Não chores, por favor, tens que me deixar ir. Eu não queria, não podia. As minhas lágrimas caíam pelos teus dedos e pelos meus e entrava num pânico que não queria mas não controlava. Começou a doer-me a cabeça insistentemente. Nesse dia deixei de perceber a morte e a vida e todas as regras implícitas que trazem em si.

Meu querido, olha para mim. Sorrias amavelmente e deixaste sair uma lágrima muito tímida. Está na hora, envolve os teus braços em mim para que eu chegue aconchegada ao meu destino. Deixei o meu corpo cair ao de leve no teu peito, chorando em desespero por saber que te abraçava pela última vez. Estou pronta, meu amor. E estavas. Amo-te, segredei-te. E eu a ti, muito, meu amor. E suspiraste pela última vez. E ali fiquei não sei quanto tempo, enquanto enfermeiros entravam e me olhavam. Aquele som agudo com notas de morte ecoava no quarto onde antes a tua alma estava junto ao teu corpo agora deserto de vida. Ninguém teve coragem de me arrancar de ti. Quando me levantei taparam a tua face ainda com esboços de paz e calma.

Nesse dia soube que te iria amar para todo o sempre.
Nesse dia senti o mundo mais pesado.

Nesse dia o céu começou a chorar por ti, ou por mim, já não sei.
Nesse dia tu foste embora para nunca mais me deixares só...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Dá-me um abraço

Não sei se o paraíso existe fora do teu abraço.

Nem me preocupo em procurar, devo confessar-te. Vivo num plano diferente dos outros porque sei que os teus braços esperam abertos por mim. Nos teus braços posso descansar, esquecer, recordar, chorar. Nos teus braços me faço sentido o que, convenhamos, é muito difícil. É no teu abraço que me sou perfeito, que me faço eu. De lá não quero fugir, porque só fugimos do que é mau, e a vida foi feita para girar em torno dos teus braços. Como em tempos disse o autor, nos teus braços morreríamos, se tal nos fosse concedido.

Não sei por onde andei antes de saber que era apenas em ti que era possível viver. É um mundo de tristeza e sofrimento aquele em que  me habituei a viver. Até que percebi que havia um lugar, um porto onde podia ser feliz e são. Onde tu estiveres, é onde está a saída de tudo aquilo que me habituei a conhecer...

Não são os braços fortes, os teus. São apenas os teus. Fazem parte de ti e tu és uma benção que não precisa de disfarce ou máscara. És tu e o teu abraço. Juntos são o meu passaporte para a sanidade fora do mundo insano em que vagueio e existo. Em ti vivo, fora de ti sobrevivo.

Por isso abraça-me, meu amor.
Abraça-me muito.
Aperta-me contra o teu peito quente para que sinta o teu coração a bater junto ao meu.
Abraça-me, meu anjo de vida.
Com toda a tua força, abraça-me sem medo. Tira-me a capacidade de racionalizar tudo e deixa-me confessar-me a ti.

Sussura-me calma e paz. Só tu me sabes falar sem dizer uma única palavra, sem me olhar até. Só tu me sabes contar como se gira à volta de um abraço.


O teu abraço.
Os teus braços.

Só tu, meu amor. Sempre tu.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Gostar não chega

Não me pediste para ficar.

Pediste-me para ser o teu boneco de peluche que só abraçarias quando te apetecesse. E eu não quis, por isso fui. Não quero ser o teu biblô quietinho e calado a quem tu limpas o pó a teu bel-prazer, quando achas que já chega de sujidade.
E eu não sou suja. Sou uma mulher que te ama e te quis a seu lado, não para te olhar virando o meu queixo para cima. A paixão que sinto por ti fartou-se de a tratares com a indiferença das areias do tempo e achou por bem proteger-me das tuas falhas. A mesma paixão que tu despertaste, então, cumpre o papel que nunca tu soubeste, nem agora nem nunca, interpretar. E eu não fiquei.

Disse-te tantas e repetidas vezes que gostar não é, nunca seria, suficiente. Mas tu não me ouviste falar.
Pedi-te que me ouvisses quando me doía, mas tu não quiseste ouvir-me chorar.
Supliquei-te que me abraçasses, mas tu não moveste os teus braços na minha direcção.

Ainda assim, amo-te. Por aquilo que não és, por aquilo que sei que poderias ter sido. Mas este meu amor está cansado, tanto quanto a minha paixão. Estou cansada, meu amor, e tu ainda me perguntas porque me vou...

Desejo-te tudo o que não soubeste fazer crescer em ti. Não perco a minha esperança por ti. Simplesmente perdi a esperança por nós...
E pergunto-te: será que fomos algum dia "nós"?

Ou apenas fomos "tu e eu"?...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Pesadelos Alheios

Sinto saudades de algo que nunca tive.

Sei que em mim falta preencher um pedaço de vida que não foi vivido, que nunca me foi dado. Contam que há pessoas que trazem em si todos os sonhos do mundo, que um homem chamado Pessoa escreveu sobre isso em tempos. Em mim carrego apenas todas as dores e pesadelos do mundo. Todos. Não discriminei nem um único. Todos habitam em mim como se eu fosse o seu único depósito.

O peso é tanto que os meus pés são arrastos e correntes.
A dor, que não é só minha, cega as minhas paisagens e fecha-me todas as portas.

Carrego nos meus ombros, na minha alma, no meu desepero, o desespero e a morte das coisas sãs, das obras que não soube construir. Carrego as tuas dores e as tuas derrotas porque me fiz convidado para tas retirar. E tu aceitaste e pediste que as levasse para longe.

É o que tem de ser. É onde habito e respiro. E daqui não sei sair. Não conheço caminhos, atalhos, fontes de luz. Não sei mais o que é ser aquilo que mais preciso.

Sinto saudades da paz da qual desisti sem esforço.
E ninguém sabe dar valor à paz que lhe foi oferecida.


Nem eu.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A noite em que o mundo não girou

É uma sede indescritível.
É mais forte que tudo o que consiga dizer. É uma vontade que não sei comparar a mais nada que tenha querido nos meus dias passados. É perder-me no teu seio e não querer encontrar o caminho de volta a casa.


Disse-lhe tudo com os meus olhos. E ela assentiu com o respirar junto à minha boca. Abraçou-me em seguida e o mundo parou por muito tempo. Ficámos envolvidos no nosso abraço, com medo de nos soltarmos. Em nós tudo se tornou medo naquele abraço.

Medo de termos de voltar às nossas vidas imperfeitas.
                                                                               
Medo de que se nos soltássemos que tudo não tivesse passado de uma ilusão, um sonho que morre ao acordar.
                                                                                                 Medo que apenas um abraço nos assombrasse as noites de insónias em que este desejo se iria transformar.
                                                                                                              Medo que não pudesse provar o sabor da tua pele, o teu cheiro, a tua língua no teu beijo.
                                                     
                                                                                      Medo que fugisses de mim.

O tempo não passava. Expulsámos da nossa presença a morte, a descrença e parámos o mundo na sua rotação. Enquanto ficássemos abraçados nada mais iria importar. E foi perfeito assim mesmo.
Sem nos separarmos do nosso abraço deixámos que as nossas bocas se encontrassem até que um beijo não era suficiente. Só os corpos poderiam saciar o que a mente suspirava.

Juntamo-nos, amamo-nos.
Era um princípio sem fim à vista.
                                                                                                     Era o mundo que não girava.
Era a terapia suprema dos sentidos que procuram o seu norte.
                                                                                    Era um tudo que sabíamos não poder ser mais nada.


Na manhã seguinte o mundo voltou a girar e o tempo voltou para nos assombrar. Ou a mim, muito mais a mim que me encontrei só na cama que testemunhou o nosso efémero amor. Dela não sabia e desconheço quando saiu de perto de mim, permitindo que tudo voltasse ao ponto de partida.

Foi um amor que não podia sê-lo, aquele que tivémos na nossa simbiose há tanto tempo sonhada. Regressou a normalidade, e com ela a certeza que aquela noite seria para sempre nossa e não passaria mais de ser aquilo que foi.

Para nós apenas seria isso.
Para mim seria muito mais. Seria para sempre a noite em que o mundo nos deixou ser aquilo que só nós sabíamos ser.
Foi a noite em que o mundo e o tempo conluiram connosco e se afastaram para sermos o que não mais poderíamos ser.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Vazio

Sabes o que eu quero?

Preciso mesmo repetir-te o que quero? És assim tão egoísta que me continues a ignorar?

Deve ser extremamente difícil para ti dares-me algo tão sincero, acredito. Terei que ser eu a pagar o preço de passados que te deixaram a mágoa e a necessidade de castelos erigidos ao pináculo dos céus. Mas eu não te faço mal. Eu não te quero pisar, nem ganhar ascendente sobre ti. Tens tanto medo de mim que nem percebes que é de ti que mais devias ter medo.

Descontrolas-te por dentro do teu corpo, abdicas de ser quem gostarias de ser, e por quê? Por nada? Por coisas que não queres saber explicar?...

Custa-me tanto ver-te assim. Estás tão perdido, desorientado. Alteras os teus momentos de um momento para o outro sem te preocupares com mais nada que não tu. Tu e algo que insistes em guardar para ti. Não procuras ajuda, nem a minha ajuda. Não confias no que sou para ti, para nós.

És refúgio, mas não para mim, agora. Apenas para ti. Que mundo é esse em que vives? Partilha, não escondas. Levanta os olhos, levanta a cabeça e respira uma vez que seja. Ocultares o que realmente queres viver não é vida. Tu não vives. Preferiste morrer algures no teu caminho e aceitares sem preocupações aquilo que te viesse parar à mão. Eu sou apenas algo que te veio parar à mão? É isso? Podes dizer-me, não tenhas medo. Está tudo bem. Há quanto tempo não ouvias isto? Dizerem-te que está tudo bem, que não faz mal ser diferente, querer ser diferente. Mas ser diferente não te concede o ónus de me excluires.

Ainda não sabes o que eu quero?
Será que não sabes mesmo o que eu quero de ti?

O que eu quero é simples: quero-te a ti! Somente a ti! Completo, uno, parte de algo maior que nós. A ti, só te quero a ti... Podes parar de fugir, podes parar de sofrer. É tão simples, se deixares. Porque se não deixares, eu deixar-te-ei viver dessa forma escusando-me de a viver contigo. Eu não mereço ser figurante no teu teatro, apenas protagonista...

Se nem isso sou, então prefiro ser nada, um simples e ausente nada.


              Serei o que me dás.             Uma mão cheia de

                                                                         nada.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Preferências

Há dias assim.

São dias vazios de palavras, de emoções e de planos. São dias em que nem o fumo do cigarro nos faz companhia, em que o sol é apenas uma lâmpada de rua, ou em que as pessoas que se cruzam connosco são apenas miragens necessárias. Hoje é um dia assim. Triste, iluminado e despido. Não achas?

Claro que não. Mesmo quando partilhavas os teus dias com os meus, nunca achaste que houvesse vazios ou perdas de tempo. Faz sentido. É a pessoa que és, que eu nunca consegui ser e que me custou a nossa partilha de dias.

Por aqui já não consigo explicar como são os dias despidos. Já o fiz tanta vez que agora corro o risco de ser banal, e tu não estás com paciência para coisas sem outro tipo de sumo. Tu nunca tens paciência para repetições. Que inveja de ti! Que saudades de ti!

Não! Recuso a repetir-me uma e outra vez! Sempre tu, para sempre tu, em permanência tu! Não! Vou parar de me dar liberdade de te falar,
                                                                  sonhar,

                                                                   sorver,

                                                                  escutar,

                                                                 procurar.

Prefiro a prisão dos dias despidos. Prefiro a solidão ao enfado da repetição. Como qualquer um destes que se pavoneiam no exterior com o ar mais atarefado do mundo, sem ter nada mais que uma existência sobrevivente e sem um destino que os espere.

Prefiro o meu cigarro à tentação de repetir o pedido feito ao vento que te levasse o som da minha angústia. Como se pelo meio das montanhas, dos oceanos e dos desertos a minha mensagem não se extinguisse na imensidão daquilo que nos separa.

Prefiro o silêncio coberto pelo fogo da penitência à devassidão da minha memória abraçada nos teus suspiros.

Prefiro não me repetir e permanecer em silêncio um dia mais. É só mais um dia.
E há dias assim.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Biografia

Gosto de fumar sentado na minha varanda.

Não tenho paisagens lindas, não tenho luzes que quase me ceguem, não tenho nada mais que a mais pura banalidade debaixo da minha varanda e à frente dos meus olhos quando me sento a fumar.

Se pensar bem, não vou à procura de imagens bonitas quando me sento na minha varanda a fumar. Apenas me sento, com o maço de tabaco ao meu lado, acendo um cigarro, inspiro e mando fumo para fora como se expulsasse algo maior que eu de dentro do meu corpo.

Nunca estou em paz comigo quando me sento na minha varanda a fumar. Nunca sinto prazer quando fumo na minha varanda. Sou eu, o meu cigarro, a vida banal que corre debaixo de mim, e a minha alma em guerra quando me sento ali.

Por vezes enceto conversas comigo próprio, quando revivo momentos que passaram. Uns mais bonitos que outros, mas marcantes no seu tempo. O que têm em comum é que me deixam fora da minha carapaça e obrigam a explicá-los, descrevê-los, disseca-los, revive-los uma e outra vez. No fundo sou um problema mental em forma de gente, se calhar. Se eu fosse ler isto a alguém, chamavam logo uma ambulância para me levar. Ou então fugiam simplesmente. E às vezes quero mesmo que fujam de mim, da minha presença, da minha pequena dose de loucura. Receio infectar alguém com este problema. É um problema?

O que importa é que adoro a minha varanda onde me sento a fumar. E gosto muito de fumar, desde que seja na minha varanda com vista para a banalidade. Em dias gelados, como ontem, esqueço que o frio me está a envolver. Esqueço porque nada me pode envolver com mais força que a minha própria forma de estar. Plenamente preocupante, mas apenas para mim. Sempre e apenas para mim. Sou aquilo que mostro, e não mostro nada que não queira que o mundo conheça. O monstro que em mim habita não pertence a este mundo, e o mundo não tem culpa da sua existência.

Os demónios que carrego, às costas da minha alma, são o combustível para o dia-a-dia que se tornou rotineiro como o nascer e pôr-do-sol o são. Sem eles não sou eu quem comanda o navio que navega nestas águas perigosas que desejam afogar-me. Sem os demónios, os diabos e anjos, as dúvidas e certezas, não me reconheço ao espelho e não sou capaz de fazer aquilo para que fui colocado para fazer nesta vida.
Um monstro com demónios e anjos da guarda em permanente vigília para que não me perca ainda mais. Podia ser uma história interessante de se escrever. Mas para quê escrever uma coisa que se vive em permanência? Não vejo interesse.

Enquanto estou aqui, na minha varanda, a fumar, a escrever mentalmente sobre a minha monstruosidade latente e a minha perfeita capa de normalidade, a banalidade da vida passa por debaixo dos meus pés, por baixo do fumo que mando fora.

A minha varanda tem vista para o abominável. Para a corriqueira normalidade sem interesse.
A minha varanda é a ponte entre o mundo do poeta assombrado e o mundo que não o conhece. Mas eu adoro a minha varanda onde fumo os meus dias, um a seguir ao outro.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Uma questão de sobrevivência

Fechou-se o dia.

Foi apenas mais um dia. Teve as mesmas horas, os mesmos minutos, as mesmas pessoas que não conheço, as mesmas ruas e estradas que conheço demasiado bem. Um dia igual ao anterior, tão vazio quanto valioso porque o vivi mas fi-lo de coração vazio.

A chuva e o vento foram a minha companhia, durante todo o dia vazio. Caminhei pelas ruas, sem guarda-chuva, com as golas do casaco levantadas, cabixbaixo como se estivesse envergonhado com alguma coisa que tivesse feito. Se calhar foi mesmo isso. Tenho vergonha e caminhei com vergonha.

Sentia o cabelo completamente molhado, e algo em mim me dizia que eu merecia esta "molha". O meu casaco pesava muito, completamente encharcado. Sentia o olhar das pessoas na minha direcção, com incredulidade olhando aquele homem, alto, de olhar prostrado no chão, caminhando numa linha imaginária, deixando-se molhar pela chuva gritante que se fazia sentir. Sem procurar abrigo, sem se preocupar com nada a não ser os seus pensamentos.

Pensava na vergonha que tinha sido a nossa despedida. A discussão, os gritos, as lágrimas dela escorrendo pela face, agarrada à minha camisa, implorando que a ouvisse. Da minha boca nem um som. Nem uma palavra, nada! Vou-me embora e nunca mais volto, vou para longe nunca mais me verás! Foram as suas últimas palavras até bater a porta com tal força que o prédio todo deve ter pausado a tentar perceber o que foi aquilo. Fui até à porta, para a trancar, e ouvi-a sentada lá fora a chorar desalmadamente. Abri a porta e olhei-a. Quando me baixei para lhe tocar, levantou-se num só movimento e desceu as escadas em plena corrida fugindo de mim. Garanto que parecia que fugia da morte.

Não dormi um minuto que fosse. Apenas me sentei à janela, na sala, a olhar a noite iluminada por uma lua enorme. Até que o dia nasceu e eu eventualmente saí para receber a punição do céu sobre a minha cabeça. Não sei quanto caminhei, quantas pessoas se cruzaram comigo. Não sei nada.

Sei só que o dia se fechou. Sei também que dela não saberei mais nada.
Sei que a solidão insiste em se fazer de minha amante durante a esmagadora parte do meu tempo neste mundo. Como uma mulher que se faz de convidada para me agraciar com falsas promessas de estabilidade. Negra como a noite mais escura. Mais forte que as vontades.

Juntos somos um casal perfeito. Eu anulo-me para que ela vença, e ela conquista-me, abraça-me e deita-se comigo uma vez mais. Ama-me na perdição da minha cama e beija-me sem que eu lhe responda. Não aceita um não como resposta e não aceita outra no lugar dela. Somos um casal único. O único casal que pode ser na minha (sobre)existência.

Eu, ela e a minha triste (sobre)vivência.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Promessas ao vento

Vou tocar-te.

Ao de leve. Vou entrar dentro da tua alma e varrer os teus sentidos. Vou segurar-te nos meus braços e segredar-te todos os segredos do mundo, para que os saibas como mais ninguém. Vou abraçar-te com a força dos sete mares, para que a tempestade não te enfraqueça. Vou ser o teu porto de repouso e de acalmia quando te cansares da vida que te queima e dilaçera o coração.

Esconder-te-ei nas profundezas da floresta recôndita quando não queiras ser encontrada, mas sim descoberta. Far-te-ei voar ao mais infinito dos céus e lá te deixarei abrir os braços e provar o vento e a liberdade que te concederei sem reservas ou porquês.

Dar-te-ei a lua e as estrelas, se mas pedires. E se isso for demais, então dar-te-ei apenas o meu corpo e a minha alma. Se não me pedires nada, não faz mal. Não faz mal nenhum.

Serei eu e serei tu.
Serei nós.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Cubo

Sentei-me.

Não consigo pôr-me de pé aqui dentro. Nem esticar os braços confortavelmente. Não tenho cama nem almofada nem janelas. Não tenho nada de confortável onde me encontro. Pensando bem, será que preciso de conforto ou paisagens? Se calhar não. E mesmo que precise não vou ter, por isso prefiro aceitar que a minha condição é esta, agora.

Ouço vozes que vêm lá de fora que reconheço. Algumas sabem o meu nome e procuram-me mas não me conseguem ver. Não as vejo, não tenho janelas. Imagino uma qualquer lei da física que me permita escutar sons ou receber ar, quando este cubo que me envolve não tem locais por onde passe ar ou barulho. Ouço chamar o meu nome mas não ouso responder. Prefiro ficar aqui. É mais confortável viver em desconforto que em harmonia.

Vou deitar-me no chão. Suponho que aqui está bem. Sinto algum frio, mas esqueço-me dele. Vai ser uma constante, por isso é melhor habituar-me a ele. Ao colocar-me na única posição que me é permitido (de lado, pernas encolhidas), respiro fundo. Uma vez, outra de seguida, e outra ainda antes de me deixar inspirar e expirar de forma contínua e menos profunda. Fecho os olhos e penso na contradição entre benção e castigo que poderia existir se eu estivesse ali fora, onde os outros andam com as suas preocupações e conquistas.
Mas neste meu recanto é mais protector, mais meu. Lá fora nada me pertence, nem sequer as direcções que opto por percorrer. Voltam a chamar-me, mas agora noto um toque de preocupação quando o meu nome soa no vento. Não ligo. Vou calar-me, esperar que passe, deixar que o vento leve esta sensação de saber que lá fora está um mar de gente que me nomeia em uníssono mas não me sabe alcançar.

Não me lembro de muito mais coisas antes de adormecer. Quando acordo noto que estou precisamente na mesma posição. Como um preso político numa cela, onde cada dia é apenas dia de mais uma sessão de tortura. Estes dias são um pouco assim, também. Acordar é sempre um exercício complicado, que exige muito de mim. Mas não quero deixar de acordar; tenho uma réstia de sentido de auto-preservação que acho ser útil. O frio não se foi embora, e agora é mais agressivo. Não tenho mais roupas que as que tenho vestidas, por isso volto a exercitar a minha mente para me habituar. Este meu cubo serve apenas para receber uma pessoa de cada vez. Não há espaço para ninguém. Ninguém vai entrar (não haver uma porta ajuda) e perguntar como estão a ser os meus dias. Se perguntassem duvido que respondesse, honestamente. Quero estar aqui, quieto, sentado, sem mais nada. É preciso, digo-me. Tem que ser.

Sentei-me, puxei os meus joelhos para junto do meu peito e envolvo-os com os meus braços e deixo descair a minha cabeça em cima deles. Há mais conforto assim. De repente oço alguém gritar muito. Vem lá de fora do meu cubo. Reconheço que o meu nome é dito, mas mais uma vez não sabem chamar-me. Estou aqui fechado, preso político por me rebelar contra o que penso e sinto, e enclausurei-me aqui. Juiz, júri e carrasco de mim próprio. É preciso, repito. Tem que ser.

No momento seguinte ao acordar vejo que o meu cubo escureceu. Está negro, quando antes era cinzento. Se calhar não é nada de importante. Deito-me novamente mas agora olho para o tecto que agora escureceu. Olho em redor mas só vejo escuridão. Não consigo ver a minha mão à frente dos meus olhos. Está certo: está escuro, não há janelas.

Uma parte de mim começa a questionar-se novamente, e sou novamente levado à barra do tribunal onde eu próprio me aviso a não fazer esse tipo de exercício. Não se pode, não se deve. Baixo a minha cabeça, aceito e volto ao meu cubo. As vozes lá fora não se calam mas eu não as quero ouvir, por isso durmo.
Não me lembro se cheguei a acordar do meu cativeiro. Não me lembro se sonhei. Apenas que estive cativo, e que nada alterou em mim. Sei que mais dia menos dia para lá regressarei e nem eu nem nenhuma voz pode fazer nada em relação a isso. 

É o meu mundo torcido, preverso, libertador ao mesmo tempo. Ninguém mais o percebe. O meu cubo. O meu pequeno cubo. É meu. De mais ninguém.

Como ao meu mundo. É meu e de mais ninguém.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Fotografia

Estás sorridente.

Calma, descontraída. Sorridente. Atrevo-me a dizer que, nesta fotografia, estás confiante.

Tens um ar confiante de que tudo vai correr bem entre nós. O amor está estampado no teu rosto calmo, descrontraído e sorridente. Não sei quando tiraste esta fotografia, nem quem ta tirou. Sei apenas que ficaste bem, como sempre ficavas.


Passou um ano desde que partiste. Ainda não aprendi como se faz para suprir a ausência de uma pessoa que arrebatou todo um universo à sua volta.

No entanto, ainda me lembro do dia que soube que tinhas morrido. Lembro-me de forma perfeita, se queres que te diga. O meu telefone caiu no chão, desfez-se em dezenas de pedaços, e a frase repetia-se na minha cabeça "ela morreu". Era uma referência repetida a tal velocidade que não sei se dei espaço à minha cabeça para pensar noutra coisa que não fosse "ela morreu".

Nunca sofri tanto como naquelas horas. Dói sempre muito quando sabemos que nunca mais veremos a pessoa amada. Que nunca mais iremos falar com ela, rir com ela, viver a vida com a beleza dela. Tinhas morrido e eu apenas teria as imagens dos nossos anos, dos nossos momentos, dos choros e brigas, do prazer interminável, da serenidade que a tua presença me concedia sem pedir licença. Tudo apenas guardado na minha frágil memória.

E nas fotografias. Nas imagens que de ti guardei, os segundos que se eternizam num pedaço de papel brilhante onde finjo que consigo matar as saudades.

Hoje é um dia igual aos outros que lhe antecederam. Diferente, é certo, mas igual aos anteriores.


Simplesmente, é um dia que não vale a pena ser vivido porque tu não estás. Nada mais vale a pena ser vivido apenas porque tu não estás.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Indecisão decidida

Consegues ouvir-me chamar por ti?

Podes vir até mim e abraçar-me? Dizer-me que tudo vai ficar bem. Só uma vez. Só mais esta vez. Não te peço muito, afinal. Vem até perto de mim e segura-me bem perto do teu peito e segreda-me que isto vai passar. 


Não te imploro por carinhos, afectos, beijos. Só por palavras, mesmo que vazias de verdade. Que te ouvisse uma vez mais, seria suficiente para me alimentar esta noite. Amanhã logo se vê. Mas hoje, hoje preciso do teu segredo junto ao meu.
 

Podes mentir-me, não me importo. Mente e diz-me que precisas de mim como nunca precisaste de mais nenhuma. Que me amas, ainda, que nunca vai terminar esta nossa história. 

                                                                  Só mais uma vez, fala-me.

                                                                                     ....


Sento-me, por fim, no meu sofá. Sozinha, apaguei as luzes e deixei apenas a lua entrar. Está muito frio na rua, mas em mim sopra um vento muito mais gelado. Desliguei do meu monólogo enfadonho por saber que é apenas isso: um monólogo. Já não me queres ouvir, não me queres aplaudir no final das minhas palavras cuidadosamente escritas e ensaiadas. O palco já não é para mim. Tu és tudo, como queres. Argumentista, encenador, actor principal da tua própria história onde eu nem como personagem secundária tenho lugar ou dizeres.

Não pensei que doesse assim tanto. Nunca pensei que fosse terminar. E nunca pensei que fosse eu quem dissesse que tínhamos chegado ao fim. Não consegui mais, a verdade é somente esta. Consumiste tudo o quanto consegui colocar neste lume que foi a paixão que me moveu. Foste céus, estrelas, luas cheias. Para ti apenas fui um cometa que passou no teu firmamento que se foi apagando até que nem luz tinha para admirar.

Puxo uma manta para me cobrir as pernas. Agora o frio da rua sopra com mais força que o meu desalento. Talvez seja um bom sinal. Quer dizer que toda a fraqueza personificada nas palavras que antes te enviei no ar da noite se dissiparam, e que agora serei uma menina forte. Talvez o meu desejo que me abraces, me segures, me mintas tenha finalmente começado a desvanecer de mim.

Estou sozinha, agora. Sinto-te a falta, mas não te quero por perto. Nem contigo, nem sem ti.
É esse o meu lugar no mundo.
É neste mundo em que preferi viver.
Onde, afinal, tudo se resume a ti.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Era uma vez

Foi no dia que tudo desabou que parei de acreditar que algo de bom poderia vir do amor.


Tinha sido uma história linda, perfeitamente imperfeita, cujo final dramático eu tinha escrito com dor e perdição. Dor dela, perdição minha.
Prometi-lhe a lua, mas ela não a queria. Jurei inverter a minha marcha, mas ela sabia que era uma premissa vazia. Foram muitas as frases desesperadas que lhe segredei, no meio do meu abandono, que ela renegou. Tinha deitado tudo a perder, e no chão onde jaziam os pedaços do que tinha destruído, ali estava eu. Sozinho, agora.

O vento soprou com toda a sua força, e varreu tudo diante de mim, sem que eu tivesse tempo de recolher um único momento daqueles pedaços. Tive frio, muito frio. Cada pedaço do meu corpo tremia de medo, de angústia, de culpa.
Era o meu corpo que agora se cruxificava, sem a benção de um perdão que sabia não merecer. Não era ela que não me perdoava. Era eu.

Foi no dia que a história dela mudou que eu parei de acreditar que o meu final seria feliz. E ninguém tinha culpa senão eu.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Corrosão

O amor dói. Pode corroer. Pode ser a força mais destrutiva da alma, e mesmo assim aceitamo-lo.
Pode ser um autêntico salvador, mas nunca o sabemos a não ser que o deixemos entrar. E nós não queremos ser salvos, convém que sejamos francos.

Pode ser uma recordação, uma brisa no fundo da memória que nos abraça. Aquela lembrança, o pensamento feliz para onde podemos fugir quando nada nos sorri.
O amor pode ser uma pessoa que nos marca, que nos dissolve, que nos faz renascer.

O amor pode estar disfarçado de beijo passageiro que aconchega nas noites mais geladas do nosso inverno pessoal.
Sabe assumir as formas mais desejadas apenas para nos enganar e fazer pensar que é tudo tão bom…
E como nós amamos ser enganados. Nós preferimos o engano à verdade crua. Nós somos os masoquistas da alma, os presos políticos do coração que nunca vão conhecer a liberdade, nem vão ver o sol como foi antes.

Nós somos a chuva que cai do céu mais negro, que troveja, vocifera! Inundamos os nossos vales e planícies calmas com a raiva e a dor que só o amor pode dar, que só o amor pode ser!
Nós somos os deuses mais impotentes do nosso mundo que desprovemos de regras, de sentidos, de emoções!
E somos tudo o que apenas ousamos sonhar nos nossos pesadelos, por causa do amor. O mesmo que foge, corrói, surpreende…

Amar dói. Sofrer por amor também. Muda-nos para sempre.

Mas, mesmo assim e apesar de tudo, ainda não conhecemos dor que por nós seja mais amada que aquela que o amor nos dá.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Argumento

Não era suposto ser assim. Eu tinha imaginado tudo diferente. Nos meus sonhos não havia dores, nem complicações. Só um final como nos filmes em que acabávamos juntos, num abraço que a eternidade haveria de abençoar.

Não era suposto ser assim. Tu ficarias aqui, por perto, sorridente e transbordante de felicidade. Eu ficaria feliz só porque tu estavas feliz. Teríamos a vida perfeita que o Argumentista Perfeito tinha escrito para ambos, num ciclo vicioso de perfeição. 

Não era suposto ser assim. Não devias ter ido embora, farta de perfeição intocável. Nunca te poderias cansar de mim, de nós. Não estava escrito desta forma, e o improviso não seria uma opção.

Improvisaste. Mudaste o jogo, as linhas, as frases. Partiste para não mais voltar, para um local onde nunca te pudesse alcançar. Eu não sei improvisar, só sei fazer como me indicam, tenho medo de improvisar e mudar as regras da vida. Tu não. Tu és desafio e questão. Eu sou bafio e aceitação. 

Não era suposto ser assim. E se não era para ser assim, então para que foi sequer?...

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Poesia

Como te chamas?
É assim tão importante o meu nome?
Tens razão.

E saímos dali. Estávamos com pressa de viver alguma coisa que não sabíamos bem o que poderia ser, mas era urgente descobrir.
Na manhã seguinte não sabia dela. Deixara-me uma rosa branca na minha secretária, em cima da minha máquina de escrever, onde tinha dactilografado um curto bilhete de despedida “Obrigada por me teres amado tanto. Um beijo, poeta”.

Fui até à janela na esperança de ainda a ver. Foi vã a esperança.
Fechei as persianas, voltei à minha cama, e deixei-me sonhar com ela.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Voar

Perdeste-me no dia que me prendeste.

Passei toda a minha vida vivendo-a de forma livre.
Respirei cada fôlego como se fosse o meu último.
Saboreei cada gota de vida como só os insaciáveis sabem saborear.
Deixei-me tocar por quem me soube conhecer.

E eu deixei-te conhecer-me como ninguém antes tinha tido permissão para conhecer. Entraste por mim adentro como se o meu mundo fosse agora uma permanente celebração.
Perdoei cada falha no teu carácter porque te aceitei tal como és, e deixei-te viver em mim livre de ónus e encargos, pedindo apenas que não me prendesses junto a ti.

Soube ler nas entrelinhas que me amavas mais do que as palavras poderiam dizer, e como a minha perfeita correspondência te preenchia os dias, acalmava as noites e trazia a energia do Sol no teu corpo.
Mas houve sempre algo que me rogavas que te desse e que sabias que não te poderia dar jamais: a minha alma em exclusivo.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O meu nome é teu

Não sei mais chamar-te, dizia-me ela.

Não sei mais como te implorar que fiques em mim, soluçava ela.
Não sei mais como te dizer “amor”, não sei encontrar o caminho de volta. Perdoa-me, dizia-me, perdoa-me por não saber mais o teu nome como antes.

O norte não me é mais nada, agora que tu deixaste de ter o nome pelo qual te conheci durante tantos meses, anos. Consegues desculpar-me? Consegues perceber-me no meu do meu discurso embelezado e pleno de significado, perguntava-me ao enxugar as lágrimas.

A luz é-me nociva, queima-me a pele. Só o negro me faz sentido. Quero esconder-me, deitar-me, afogar-me no soluço compulsivo da lágrima e esquecer-me que há o mundo na rua a passar. Sabes o que é o vazio, aqui dentro, chorava apontando para o seu peito, como que a segurar o coração nas duas mãos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Princesa

Abeirou-se de mim, assustada.

Dizia-me “papá, caí… rasguei o vestido…”
Não faz mal, princesa. Cair faz parte de aprender a andar, tentei explicar-lhe.
Ela chorava, receosa de uma repreensão da mãe. De uma repreensão que não chegou, pois não havia motivo. Ela é que não o sabia ainda.

Mas papá, a mamã vai ficar triste comigo, e vai ralhar comigo.
Porquê, princesa? A mãe não fica assim triste contigo por causa de um vestido. Devagarinho, as lágrimas começaram a parar. Disse-me que a mãe tinha dito para ela não correr. Que subir às árvores não era aceitável, com o vestido novo.
Mas ser criança implica testar os limites da paciência daqueles que mais nos amam.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Nada será com antes

Terra estranha, esta.
Amigável, mas estranha.

Há algo que se sente no ar, que se sente nestas gentes. Não são tristes, mesmo vivendo debaixo de um clima de restrição.
Aqui as letras são diferentes, as coisas escrevem-se do avesso, para o lado inverso, e os nomes das coisas importantes são ditas e respiradas de outra maneira.

Ainda me custa olhar para trás, e ver o caminho que me trouxe aqui. Começar do zero nunca tinha sido uma opção, mas agora nada há a fazer. As linhas são mesmo diferentes na minha história e tenho que me habituar a essa realidade imposta.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A partida

Malas feitas. Está na hora.

Arrumei tudo dentro da mala, menos quem gostaria de levar. É assim que o mundo gira, é assim que se avança, mesmo contra os mais profundos desejos de cada um.
Não consigo ainda fechar a mala maior. É onde guardo roupas, livros e alguns pedaços deste sítio que agora deixo.

Não cabe tudo. Não cabem as pessoas, mas ainda procuro recantos onde possa colocá-las. Sinto-me idiota por fazer essa busca, mas de tudo o que levo nada poderá servir de aconchego quando comparado a um abraço, um carinho, um telefonema, um beijo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O vento

Soprava forte.

O vento. A mágoa. O medo.
A perda misturava-se com tudo e com o aglomerar de nadas que eu contava na minha mente.

Pesei tudo. Vez após vez. Contei o que ainda não tinha, contrapondo com os restos que me caíam à frente.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Ímpio

Nunca para, o tempo.

Quando o tempo parar, também eu não terei alternativa senão inexistir.
Não quero existir desta maneira, por isso quero que o tempo pare de se contar, de se mexer, de me roubar, de me fazer avançar.
É um avanço mentiroso, pesado, salubre, ímpio. E o tempo torna-me assim. Mentiroso, pesado, salubre e ímpio.

É uma aventura deliciosamente insensível, a minha. Mas cansa, é exasperante em certos tons do dia; mais quando o dia se torna cinzento, quando perde a cor da madrugada. Carrega beleza, ao mesmo tempo, mas é, na sua última instância podre.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Uma e outra vez...

Descansa, agora.

Enquanto acendo um cigarro, ouço o movimento dela nos lençóis. As pernas dela movem-se lenta e seguramente por entre os lençóis que a cobrem parcialmente.
Deixei-a a dormir depois do prazer. Prefiro fumar e olhar encostado na ombreira da porta. Sei lá, parece-me uma pose mais “hollywoodesca” que apenas ficar ali deitado a olhar de lado. E não há ninguém que não goste de olhar a uma distância razoável.

Consigo fumar sem fazer um único som, consigo olhar sem dar nas vistas ao instinto dela.
Tenho sorte, penso. Que bem terei eu feito, e a quem, para me seres dada, assim, de mão beijada?

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Faz-te à estrada

Deixei-me ficar.

Preferi permanecer na rua uns minutos mais. Passei grande parte da noite a deambular, rodeado de vazios mesclados com cheios. Havia muita vida nas ruas da vila, durante grande parte do tempo. De um momento para o outro chegou o silêncio. Uns raros carros foram passando por mim, sinalizando que, para aquelas gentes, tinha chegado a hora de recolher.

Senti uma espécie de alívio, pois as ruas seriam só minhas.


Pé após pé fui aprendendo o caminho das ruelas, entre calçadas e alcatrão, palmilhei não sei quantas

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Morto de cansaço

Fonte: vilaclub.vilamulher.com.br
Achei-o estranho.
Triste, até...
Vivam-se dias sombrios carregados de sol, e eu olhei-o com admiração mórbida.

Estava muito cabisbaixo, e não dizia uma palavra que não fosse necessária.
E no meio dessa constatação, não tive coragem de o questionar sobre o que o consumia assim.
Às vezes fazemos bem às pessoas só por não lhes perguntarmos nada. Deixá-los permanecer na penumbra até que tenham vontade de ver a luz do sol.

Acordar Nunca Mais

Fonte: fotolog.com
Acorda.

Acorda para mim, uma vez mais.
Por mais que te custe olhar-me, fá-lo uma última vez. Levanta a cabeça e enfrenta os meus olhos um último momento.
Sim, eu sei. Eu sei que não queres despedir-te, mas é o teu próximo passo. Não és tu, sou eu. Também sei isso.

Não elaboraste grandes discursos, não andaste em redor do assunto, foste corajosa e disseste-o.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Prometo Falhar para me Salvar

Fonte: msgqueedificam.blogspot.com

Qual é a cara do desespero?
Qual a expressão da perdição?
Qual o caminho para a salvação, a fuga do desespero e da perdição?

Qual deve ser a penitência?
Qual deve ser o preço a pagar pela falha?
Qual deve ser o sentido da confissão, senão o perdão?

terça-feira, 30 de junho de 2015

A Morte saiu à rua

Fonte: fioapavioblogue.blogspot.com
Partiste.
Foste para outro lugar.
Eu não queria, mas não dependia da minha vontade. Não estava ao meu alcance prender-te. Por isso, partiste. E foste para outro lugar.

Por vezes a vida leva-nos o que mais desejamos ter por perto. Por incapacidade nossa de manter a presença do outro alguém. Pelo cansaço do trabalho que dá manter o outro alguém na nossa esfera. Por causas naturais que reclamam os corpos e as almas em conjunto.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Lado nenhum

Perguntou-me, muito sério, no café da esquina:

- Achas que vais a algum lado com isso da escrita?

- Acho. Sou bom o suficiente para isso – respondi, confiante.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Lamento

Perguntei-lhe, do alto dos seus 18 anos:
- Que queres ser quando fores grande?
- Feliz - respondeu, prontamente.
- Lamento, mas já não vais a tempo.

Afastou-se de mim, a chorar, e não mais a voltei a ver. E ainda bem. Sonhar tão alto nunca fez bem a ninguém assim tão novo.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O meu nome é Maria (terceiro e último acto)

Fonte: carlossimo.arteblog.com.br
Passaram mais dias, e mais dias passaram sem que nada em nós mudasse.

Mas a cada hora, a cada respiração das nossas bocas, sentíamos o nosso tempo fugir. Tinha abandonado tudo para estar com a minha Maria, esquecido que tinha uma vida fora das muralhas da nossa sublime paixão. Maria entristecia a cada dia, como se consciente de que uma despedida estava por perto. Eu sentia-a um pouco mais íntima do meu ser a cada momento, mas não conseguia fazê-la esquecer o peso que ela carregava.
O mar grita por mim, dizia-me. Eu percebia mas não percebia porque ela tinha de partir. Porque te chama ele, questionei-a. Ela simplesmente baixou os olhos e abraçou-me, soluçando nervosamente. Preciso que me abraces, abraça-me por favor. A minha Maria chorava, despedia-se a cada pulsação, e eu sofria. Não queria perdê-la, mas ela era-me roubada uma e outra vez pelos pensamentos, pelos chamamentos, pela sensação de despedida que habitava nela como uma semente que crescia e preenchia cada recanto da sua alma.

Adormeceu nos meus braços, nessa tarde. Deixei-a repousar nos lençóis do nosso amor, e parti em direcção à praia. Coloquei o meu ar mais desafiador e perguntei, em silêncio, que queria o mar com a minha Maria. Não tens o direito de ma roubar, não te pertence. Mas seria que ela me pertencia? Ou não era de ninguém, senão dela própria? Eu não tinha respostas, apenas saudades e dores e ansiedade e prazer e dúvida permanente. Já não sabia lidar com nada disto, e olhava os céus cinzentos pedindo uma ajuda que não chegaria jamais.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Cronologia de uma queda




Carrego às costas o seguro.

O meu seguro de vida, que me salvaguardaria da tua desistência de mim. Temo esse dia, porque o sei possível. O meu para-quedas é daqueles que pode não abrir, eu sei.

Mas preciso dele.
Preciso porque sei que a estrada em que caminho pode abrir-se de repente, com a tua partida. Se tu faltas, falta-me o chão. Se me falta o chão é porque já não estás, e a queda-livre pelo teu amor desaparecido torna-se a minha nova realidade.

É um seguro, sabes? Pesa este meu seguro, mas dele preciso.
Percebes?

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Dia da criança



O dia da criança chega ao fim em breve.

Perguntaram se eu tinha saudades de ser criança. Tenho. 

Mas tenho porque ser adulto, em demasiados momentos do dia, é uma real merda.

E não me importo de ser "asneirento" ao exprimir-me. Não tenho, e não vou ter, papas na língua, e não gosto muito de censura, muito menos auto-censura que hoje é a coisa mais presente no dia-a-dia de cada um, camuflada, mas presente. 

Ser criança significa que nos passam ao lado todas as merdas que atualmente insistem em rodear a sociedade, as relações interpessoais, as relações institucionais. E olhem que bosta a mais já enjoa. Bosta deve ser sempre demenos, nunca demais, mas os dias de hoje estão carregados dela. Basta irmos à varanda e vemo-la passeando, mostrando-se, sussurrando, roncando, barulhando até à exaustão.

Ser criança é bom, mas se há coisa que as crianças hoje não são é precisamente ser crianças. São enfiadas em ATL's porque a sociedade exige que os papas e mamas estejam "ocupados" a (sobre)viver ao invés de educar, cuidar, amar, tornar os pequenos em pessoas úteis e interessantes. Em vez disso ser criança é ter telemóvel topo de gama, ter tablet, competir na escola para poder competir quando tiverem a nossa idade. Ser criança, hoje, é ser pressionado com provas e provações, já não é ser pressionado pelo vizinho do andar de baixo a ver quem ganha a jogar ao berlinde ou à apanhada ou a ver se a malta da rua de cima nos ganha no jogo de futebol inter-ruas que decide o campeão daquela semana.

Não. Hoje ser criança é ser educado para esquecer que o dia tem horas para brincar com os pais, lembrar que há o inglês, o futebol, a natação, a catequese, tudo menos estar com os pais a horas decentes e não apenas quando têm que fazer os trabalhos, tomar banho e comer a correr para amanha levantar as 6:30 da manha e começar a mesma merda do costume.

Ser criança pelo menos, se tem de ser tão sufocante, que tenha uma recompensa: não perceber toda a bosta que rodeia ser adulto. 

Porque, crianças do mundo, ser adulto por vezes é a pior coisa do mundo. Podem acreditar, eu tenho umas costelas de adulto, e se duvidarem perguntem aos papas e as mamas quando os virem no fim‑de‑semana ou assim (que é quando terão 5 minutos do tempo deles para conversar, entender, saber que são os vossos pais, não apenas aquela malta que vos obriga a fazer os trabalhos, tomar banho e deitar cedo).

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O meu sonho chama-se Petra

Fonte: amorislumineaeternam.tumblr.com
Sempre gostei de livrarias.
Abomino o digital em que tentaram transformar o papel.
Considerei sempre que era um sacrilégio destruir o que tanto trabalho deu a construir. É um local onde se pode procurar bênçãos, saber, amor, cordel, o que nos aprouver. E por isso considero que o livro merece, e merecerá sempre, que seja parido em papel. Gosto de livros.
E sempre gostei de livrarias.

Normalmente, passo muito tempo na livraria vermelha e branca da minha terra natal, aquela que fica junto à superfície comercial demasiado megalómana para as ambições atuais. Gosto de lá vaguear, não pelo atendimento (que sempre me passou ao lado), mas porque me sinto em casa. É mágico ali estar, e sempre que me desloco até à livraria encontro um sem-número de desejos ardentes que necessito saciar. Tal como o foi a Petra.

Petra… O nome tem algo de místico. E ela também tinha.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Alegria de viver

Fonte: pensamentossemnexo.com
Se soubesse o quanto, ainda hoje, preciso dela talvez tivesse preferido nunca me ter cruzado com a Joana. Ou talvez não. Dói sentir-lhe a falta... E é tão bom, ao mesmo tempo...

A Joana possui aquilo que muitos de nós invejamos: pura alegria de viver.

Toda ela é um hino ao milagre de estar vivo, e isso é raro. Muito raro. Tão raro que não me lembro de ter conhecido alguém, homem ou mulher, que existisse desta forma sublime.
Lembro-me de quando nos encontrávamos ocasionalmente, n’A Mexicana, depois das entediantes sessões de dissertação do Professor Alves, o nosso humor se alterava apenas porque a Joana se sentava na esplanada connosco. Era uma emissária dos céus para nos dizer que mais há que apenas sobreviver.

No fim de tantos encontros movidos pelo acaso, juntei todos os pedaços de coragem que a minha mente permitiu e convidei-a para jantar. Pareceu-me uma tarefa hercúlea mas senti que precisava dela, de a ouvir, sentir que falava só para mim. Graciosa como só ela o soube ser, aceitou com um sorriso tão honesto quanto perfeito.
Quando chegou a minha casa, mostrou-se algo desconfortável, não pelo facto de ali estarmos entregues a nós mesmos, mas porque lamentava não ter conseguido escolher um vinho em condições, digno de um primeiro repasto.
Ri-me. E ela comigo riu. E soube bem, soube muito bem.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O meu nome é Maria (segundo acto)

Fonte: bbbdofabiobollis.blogspot.com
(continuação)

Levei-a no meu carro até à única praia que considerava minha.
Mais banal que qualquer praia, aquela era a minha. As ondas tinham um volume diferente, um ritmo só seu. E meu. A espuma, a areia, tudo era meu, porque aquela praia parecia desenhada para mim por Alguém maior que esperou que chegasse à idade adulta para a saber apreciar.

Assim que chegámos a minha Maria sorriu-me. Partilhou um afecto na minha face e saiu, em passo rápido em direcção ao areal que chamava por nós. Observei-a dentro do carro, e decorei na minha mente cada movimento do seu corpo. Como se descalçava, a maneira como abria os braços para receber o pouco vento que ali soprava, e o momento em que os olhos perfeitos dela se encontraram com os meus.
Escondia-me dentro do meu carro, encostando a cabeça à minha mão, refletindo que presente era este que me tinha sido oferecido. Nesse mesmo momento senti-me mínimo, como se nada tivesse feito para merecer a minha deusa.

Maria chamou-me com a sua mão. Clamava, em silêncio, que me aproximasse dela. Como seria de esperar, não me contive e fui ter com ela. Também eu me descalcei, dobrei a ponta das calças e encontrei-me face a face com ela, de novo.
“Estou aqui” pensei. Abraçou-me. Um daqueles abraços de despedida que não sabemos bem como descrever, mas que sentimos ser um adeus. E apertou-me mais. E soluçou.
Eu conseguia sentir a minha camisa humedecer nos ombros, e sabia-a a chorar. Retribui o abraço que me entregava, na esperança vã de a acalmar, suplicando que parasse com aquele choro que fazia doer a minha alma.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Salva-te sozinho

Filipa foi uma mulher que me fascinou. Especialmente porque nunca me ligou nenhuma, exceção feita àquela vez que me ligou para se despedir.
Habitou sempre em mim um sentimento de posse por alguém que nunca imaginou sequer trocar mais que duas palavras. Esse alguém era a Filipa.
A Filipa sempre foi uma besta comigo, mas uma besta requintada. No jargão mais ordinário poderia dizer sobre ela que “era muita puta”. Não era uma oferecida e contavam-se pelos dedos de uma mão o número de homens que a possuiu entre lençóis. Não. Ela era muita puta porque era tão sabida quanto uma puta o é. E esta comparação não é para todos entenderem. Só aqueles que nunca estiveram com uma puta irão apreender o que significa.

Sabia muito sobre viver, sem ter o peso de uma idade que levasse a essa conclusão. Raro. Muito raro nos dias de hoje.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O meu nome é Maria

O meu cigarro ainda queima, enquanto me perco a olhá-la. À Maria.

A Maria (há sempre uma Maria) pavoneia-se em frente ao vento que a abraça num aperto suave pelo qual ela se apaixona irremediavelmente. Como eu me apaixonei por ela.
Não sei precisar, agora, se foram os lábios que me entregaram esse feitiço no momento que a beijei na cama. Provavelmente terá sido esse o click inicial, mas pensando bem, não foi bem aí.

Conheci-a numa estúpida festa, daquelas banais para as quais somos solicitados sem sabermos bem a necessidade ou o porquê. E por essa mesma razão vamos – todos temos um gene de estúpido em nós. A Maria só sabia ser o centro das atenções, precisamente pelo facto de não o querer ser, atraindo ao seu redor um número considerável de homens que queriam conhecer o que escondia Maria.
Mas apenas ela poderia lidar tão bem com o assédio desavergonhado. Só ela os saberia colocar a pensar ainda mais porque estaria ali, sozinha, sem complexos.
Não podem sequer compreender-me, suspirava Maria. Sorria amavelmente, mas não era sincera. Notava-se que queria sair dali, mas nenhum dos ignóbeis sabia a frase certa a proferir.
Reencarnação de uma deusa grega, chamei-lhe eu, mas sem que ela ouvisse, claro. Nunca se deve comparar uma mulher a uma deusa em voz alta. Não é apropriado, contam as regras da boa educação.

Mas Maria ouviu-me, pois dirigiu-me os olhos verdes. Aqueles espelhos onde não queremos ser refletidos por ficarmos sem defesa e sem máscara. Só a Maria, a minha doce Maria, poderia despir-me assim. Nunca vou perceber como me ouviu a Maria.
Gentil, como só uma mulher digna desse nome sabe ser, pediu desculpa, deixou embeiçado mais um ignóbil e dirigiu-se a mim. Abraçou-me como se quisesse dançar, gemeu baixinho como sentisse alívio e sussurrou-me:
- Imploro-te, tira-me daqui.

Não consegui proferir uma única palavra. Agarrei-lhe a mão sem apertar (nenhuma mulher gosta de se sentir apertada, muito menos presa) e trouxe-a até ao jardim.
Nunca ouvi ninguém suspirar como a minha Maria. Olhou-me triste, mas sorriu para mim.
- Obrigada. És um anjo. Estou farta, sabes? Mas salvaste-me.

Não fui capaz de falar, novamente. Sorri timidamente, ajeitei os óculos no meu nariz e simulei uma vénia. Pensei “Não precisas agradecer-me.”
Assustei-me, pois ela ouviu-me de novo.
- Obrigada, sim. Viste-me, percebeste que não queria estar ali. Vamos embora? Levas-me para um lugar teu? Não me interessa quem és, não é importante. Mas adoro que sejas a personificação silenciosa do que necessito. Vamos?

Afastei-me do seu caminho, e deixei-a passar, como o cavalheiro que penso ser, e aí senti algo novo.
Tão novo que não consegui racionalizar o que estava a ver, cheirar, inspirar.
O vestido. Nem tinha observado as suas vestes de deusa. Percebi os seus contornos todos. Entendi o seu cheiro, a forma como movia as mãos.
“Apaixonei-me” pensei. Sabia que era obviamente mentira, mas disse-o para mim mesmo.

Permaneci imóvel, apenas apreciando a Maria, e a forma como caminhava no ar.
Deusa, chamei-lhe, e ela parou. Estática durante segundos, e virou-se em seguida para mim mostrando toda a ternura que um sorriso pode encerrar.
Esticou-me a mão, de novo, segurou-me e ao chegar ao seu lado, envolveu o meu braço e encostou a cabeça. Perdi-me de amores por ti, Maria.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Dia Mundial da Fibromialgia

Fonte: Google
Tenho dores.

Levanto-me com dores.
Nunca estou sozinho. Estou sempre com as dores.
Perdi a conta aos dias em que mal me pude movimentar. Sobrevivo continuamente com a noção que nunca terei paz.
No entanto, recordo com carinho cada dia em que pude viver livremente, sem nunca ter noção que estaria encarcerado em breve. São boas recordações, sabes?

É bom ter algo a que nos possamos agarrar para nos aliviar os momentos em que mal nos conseguimos suster vivos.
Medicamentos e consultas. Consultas e mais medicamentos.
Poderia resumir a minha vida nessas duas palavras. E mais custa pelo facto de estar só. Sempre só. Só com as dores que me acompanham sem tréguas, sem férias, sem feriados desde os últimos 14 anos.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Ama-me

Ama-me.

Se não sabes fazer outra coisa, ama-me.
Se me queres por perto, chama-me e eu estarei aí.
Se me desejas, diz e eu saciarei a tua fome.

Vive-me.

Se nada tem sabor, prova-me.
Se o vazio domina o teu dia e mata a tua noite, arrasta-me para dentro de ti.
Se não sabes existir sem o meu abraço, vive-me e eu abraço-te no meu manto.

Segue-me.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sonhos

Sonhar faz bem, rezam as crónicas.

Confessa: tu amas sonhar.
O que te dói é que os teus sonhos raras vezes se realizam. É isso que te corrói.
O acto de sonhar é intrínseco ao ser humano. Qualquer um de vós sonha com dinheiro, com posses, com empregos fantásticos. Outros há que sonham com pessoas.

Esses devem ser aqueles que mais sofrem por sonhar. Porque o sonho daqueles que sonham com a pessoa dos seus sonhos, são aqueles que menos têm ao alcance o propósito do seu desejo.
Sonham com a pessoa que lhes percorre os sonhos, imaginando que possam ser, igualmente, a pessoa dos sonhos do objecto da sua ânsia.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Constatação

Falta-me inspiração.

Não é uma confissão, apenas uma constatação.
E acredita que é uma constatação que me custa constatar.
Admitir coisas que não me favorecem, nunca foi o meu forte. E isto sim é uma confissão.
É um exercício que me custa digerir, que me leva para caminhos que não considero serem os meus.

Não gosto de confessar nada.
Muito menos que não consegui fazer algo.
Falta-me inspiração, sabes?

E é uma constatação que acabei de constatar. Mesmo que não te interesse saber isso.
No teu lugar também não me interessaria.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O Tempo é Desleal

Perdeste o brilho no olhar, com a idade.

Estás cansado, e já não sabes escondê-lo. Provavelmente nem queres. É justo. Ao menos quando chegamos a velhos que possamos fazer o que nos apetece.
Sem regras, sem problemas.
Entretanto vivemos na obscuridade do que poderia ter sido, toda uma vida.

Ainda te lembras de quando eu andava de mão dada contigo, empoleirado no muro, com 5 anos, e dizia que era mais alto que tu?
E logo a seguir saltavas para cima desse muro, para me fazer companhia? Lembras-te?
Tenho medo que não te lembres. Era suposto nunca envelheceres, mas o tempo trocou-nos as voltas.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Cegueira

Acordei cego.
É verdade, acredita em mim. Estou cego de sentir tanto a tua falta.

Sei-te longe de mim, de tudo o que antes conhecia como passado que me moldou até ao meu presente. Não existe luz aqui, só escuridão incandescente que me abafa todos os sentidos excepto o da saudade. Sinto-me tão ausente deste plano apenas porque optaram que por aqui não residirias mais.

Estou cansado. Estou ensanguentado de dores indescritíveis, cuja definição não encontrarás em nenhum dicionário. Sinto-te tanto a falta e nem consigo expressar-to em condições e agrido-me por isso.
Tomara que no plano em que te encontras consigas perceber o quanto me fazes falta.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Saudades

Quando recomeças algo, sentes falta do que fizeste antes.
Se regressas ao que fizeste antes, sentes falta do que recomeçaste.

A mente humana é demasiado indecisa.
Tu também.

Manual de sobrevivência

A vida começa cada vez mais cedo, na cidade.
Esta obrigatoriedade de produzir para manter uma ligação laboral a todo o custo é uma realidade demasiado forte. Obrigam-nos a correr em desespero para não perder um falso norte monetário, e nada mais importa.
“Vivemos para o próximo ordenado! Não há mais nada!”. Ninguém ousa duvidar da veracidade do desabafo dele. Um homem de meia-idade, sentado à minha frente, no metro, conversa com outro homem a caminho sei lá de onde. No fundo, tornámo-nos carneiros, todos nós. Nascemos, crescemos, formatam-nos para sermos mais um no rebanho e assim andamos até à data da nossa morte.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Facebook

Sabendo eu à partida que tu és um anormal, pouco ou nada me deveria importar com o que dizes ou fazes. Mas o meu ódio pela tua existência leva-me a ter uma mórbida necessidade de saber de ti.
Não me compreendo, mas é assim que as coisas são. Sei perfeitamente que deveria ocupar a minha mente com outras coisas mas tu insistes em invadir o meu espaço. Mesmo quando te estás a cagar para mim – como agora – insistes em fazê-lo inadvertidamente. E essa merda irrita-me bastante.

Chego a considerar-me patética só de me lembrar que existes. Eu expulsei-te da minha vida com toda a pompa e circunstância que a ocasião merecia (mandei-te para o caralho, se bem te lembras), numa das nossas conversas de facebook. Tu riste-te com aquele irritante “lol” de merda que só tu consegues inventar, e disseste “obrigado, linda”, ao que eu prontamente respondi da única maneira que uma mulher como eu conhece: fechei a porra da janela, e passei a esquecer-te.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Obsoleta capacidade de sentir

Não sei sentir, já...

À minha frente o céu vermelho aconchega-me algo que não consigo chamar “alma”. É apenas um falso conforto que sei que é efémero, como esta falsa fuga que me obrigo abraçar. Deixei de sentir fosse o que fosse, agora que este dia termina. Perdi o medo, a esperança, a força para respirar pelos meus próprios meios, e aceito que este caminho termine dessa forma disforme.

Em tempos, que agora olho sem saudade, encarei a existência como uma estrada com vários entroncamentos que o mundo chamava “escolhas”. A estrada era sempre a mesma, variando apenas nas suas esquinas e caminhos de terra batida por onde eu me limitava a virar, permitindo que as minhas incursões pelo vazio deixassem de ser ocas e opacas, para que pudessem vir a ser felizes opções que tornassem o real em sonho.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Um último abraço

Abraçaste-me pela última vez.

Pelas nossas faces correram as cascatas da dor profunda, carregadas de vazio e de despedida, e assim foi assumido por ambas as partes. Sem dizer qualquer palavra, sem respirar mais. Foi aquele abraço o nosso último fôlego, aquele que nos separou da vida que tínhamos vivido. E doeu. Corroeu mais que ácido. Destruiu-te a ti e a mim, mas estava escrito que assim haveria de ser. Por isso, assim foi.

E mesmo que quiséssemos, ambos sabíamos que não era possível falar, pois há coisas que não são para ser ditas. Apenas se vivem e ficam aqui dentro sabe Deus para quê.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A Morte, essa puta

Regressa Novembro, e com ele todos os pesadelos da morte que te levou após fugazes semanas de luta inglória.  
Regressa a neve, a dor, a paisagem que tanto de belo e poético tem, como de doloroso, pesado para a memória.  
Dói sentir saudade desta. Corrói sonhar desta forma tão cruel e, ao mesmo tempo, tão ironicamente bela. Sonhar com pedaços de paraíso que já lá vai.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Em quando estás?

Passam-me os dias.

E eu? Bem... Eu tenho passado a maioria dos meus dias simplesmente a pensar e, ao mesmo tempo, a olhar para trás para os estranhos e absolutos dias que atravessei.
Até que cheguei aqui. Mas onde é aqui?
Onde estou? Ou, se calhar, quando estou?

Honestamente não sei muito bem. Sei perfeitamente em que ano, mês, dia, hora me encontro. Mas em que ponto da minha travessia me encontro?

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Toca-me uma e outra vez

Sabe tão bem quando me tocas.

Sou mais mulher por sentir o teu toque na minha pele. Todos os meus recantos te pertencem, e estremecem de cada vez que nos colamos um ao outro.

As tuas mãos são tão… suaves.
A forma como me estimulas de cada vez que te deixo descer até ao meu mais profundo é algo, certamente, pecaminoso. Não há outra palavra! É pecado o que me fazes! Mas eu amo todo e qualquer toque que me ofereças. E amo pecar contigo…

Transpiração

O suor escorre.

Fico sempre assim. Fatigada. Saciada. Enamorada. De cada vez que nos juntamos no prazer sinto-me fatigada, saciada e muito enamorada.
Não preciso de nada mais que não seja deitar a minha cabeça no teu peito e relaxar. Deixar-me relaxar por longos momentos. Apenas descansar enrolada no teu abraço e esquecer-me de tudo o resto que está lá fora. Tudo o que possa estar fora deste quarto é irrelevante, pois nada mais importa a não ser a tua presença aqui, comigo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Acabou-se

Gasto.

Gasto o meu tempo, o meu suor, o meu sangue. Tudo por ti.
Deixo-te escorraçar a bondade que ainda me restava do meu íntimo, para deixar regressar o meu pior lado, o meu alter-ego destrutivo. E estou farto de gastar. Cansei-me de desperdiçar quem sou com quem apenas me pisa e destrói dia após dia, beijo após beijo, foda após foda.
E chega de ser fodido, chega de ser delapidado.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Dispara

"Então é assim que vai ser." - pensou

Tinham atado as suas mãos e vendado os seus olhos, pouco antes de o obrigar a joelhar. Típica posição de execução.
Não havia volta. Tinha perdido. 

Ao longe chegava o som dos carros em trânsito contínuo na auto-estrada, cujas luzes sobressaíam da paisagem à sua direita. Mas ele não os conseguia ver agora. 
Estava estranhamente calmo, considerando o que o aguardava. Talvez fosse o facto de nada poder fazer para evitar o destino o tivesse acalmado. José já tinha para si que assim seria o fim de tudo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Prazer em conhecer-te

00:02

Não se ouve nada. Nada a não ser a respiração de quem está sedado, anestesiado, desligado. Dormem. Nem todos profundamente. Eu ainda estou acordado a olhar o tecto, a “pensar na vida”. Já é uma vida com algum tamanho, concluo. São muitas primaveras, verões e outras estações. Estou cansado de estar aqui, vivo. E já estou cansado há demasiado tempo e, por isso, convenci-me de que a minha hora tem que estar breve.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Para de me foder

Para de me foder.


Estou cansado que me fodas constantemente.
Nem são fodas boas, porque não desfazemos camas, nem nos enrolamos em lençóis, nem fugimos para nenhum canto para satisfazer desejo nem tesão.

Tu fodes-me de cada vez que te atravessas na minha luz e não me deixas receber a energia que emana da Estrela, e estou algo farto dessa merda, percebes? O meu Sol é bloqueado pela tua estupidez, de tal forma que muitas vezes apetece-me apagar-te da minha vida, com a mesma facilidade que se apaga um traço mal desenhado num papel.
Para de me foder.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Partida

As coisas são diferentes vistas daqui.
A perspetiva muda radicalmente, e isso agrada-me de uma forma que me pacifica. Não tenho mais que correr, sofrer, pensar, decidir. Tudo isso deixou de fazer sentido, agora.
Inspiro, apesar de não sentir os meus pulmões. O meu movimento, a minha expressão começou a mudar porque me sinto calmo, porque me sinto leve e sem prisões. Nunca mais as sentirei, e acabou toda aquela noção de que não ia a lado algum. Terminou o pesadelo, mas não sei ainda se entrei num sonho.