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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Sonho-te tanto quanto te sinto

Tenho calor, hoje.
Não me sinto bem aqui!! Vou para a varanda!
Avanço de tronco nu em direcção à imagem que se vislumbra rectangular de onde me encontro.
Atiro a t-shirt branca para cima da minha cama, e instintivamente, acendo um cigarro. Mais um cigarro.

Agora que chego à varanda, consigo cheirar-te. Inalo o teu perfume. Sei que assim é porque cheiraste sempre a cidade. A Lisboa.
Levo o cigarro à boca uma e outra vez, e… cheiro-te.

Olho-te.

Vejo os telhados das casas velhas, e é como se te visse ali. Consigo distinguir-te sentada, em cima das telhas, a beirinha, quase a cair do telhado, mas sem nunca acontecer. Claro que não cais.

Ouço-te.
Soas a movimento, a vozes indistintas. Tens o som da pulsação da cidade. Da cidade que recriou. Soas a energia sem limites. Lisboa nunca tem limites.

Toco-te, quando contacto com a madeira que faz parte desta varanda mal conservada, coisa que nunca estás. Estás sempre perfeitamente cuidada, envolvida em suspiros e trajes que te assentam no mínimo detalhe.
Sinto a dureza da tua alma, da mesma maneira que sinto a rigidez deste pedaço de árvore esculpida e pregada a este edifício sem alma… alma que me roubaste ontem.

Inspiro e cheiro-te uma vez mais. Apoio os meus cotovelos na varanda e cheiro-te. Sonho-te. Anseio-te. Preciso-te. Mas não te tenho.
Fugiste. Perdemo-nos um do outro algures no caminho, no tempo.

O sol quase me cega. O cigarro ainda perdura nos meus dedos.
Passo a mão no meu pescoço. Dói-me o meu pescoço de estar deitado, todo torto, naquela cama. E movimento contínuo, encaro o sol por curtos instantes.

Fumo uma última vez. Cigarro a voar pela rua, até à calçada.
Exalo o fumo, e penso-te.
Viro costas à imagem que bem pode ser a tua e cheiro-te novamente. Ouço-te uma última vez, e sonho-te…

Sonho-te na minha língua, enquanto passo a mão nos meus lábios sôfregos.
Como se habitasses na minha boca. Com a mesma voracidade com que trocámos beijos, prazer, saliva, suores. Saboreio-te nos meus pensamentos, e sonho-te.

Sonho-te da única forma que sei…

Hoje, amanhã, sonho-te…




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