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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Natal? Só se for para ti

Acordo da minha letargia diária, com o carinho do Jonas. O fiel companheiro desde há meses que nunca me abandona, me guarda, protege, e abafa o peso da solidão que esta vida de ruas me traz.

Está frio hoje, muito frio. O vento assobia aos meus ouvidos, e nem escondido no patim do prédio consigo afastar-me dele. O inverno sempre foi a parte mais infeliz do (meu) ano. Suponho que cada um dos meus companheiros de "vida sem-tecto" te dirá exactamente o mesmo.
Não tenho posição para descansar, embora os meus ossos há muito se tenham adaptado ao duro aconchego do chão, dos patins dos prédios, das estações de metro, da cruel rigidez das grelhas de aço que moram por cima das condutas que nos aquecem, tanta e tanta vez.


O Jonas já nem liga patavina às pessoas que, como tu, passam e nem olham. Nem àquelas que olham para nós com olhares de pena, desprezo ou mera vontade de me mandar trabalhar e não viver à custa da miserável "ajuda do estado".
Do alto dos meus 63 anos ignoro essas coisas ditas sem cabeça, e perdoo-as todas, sem excepção.
Para quê responder? Para chorar novamente, como chorava há 16 anos atrás quando me vi sozinho? expulso da minha vida, e recebido pelas ruas sem piedade? Deixei-me disso.

Agora as ruas estão mais luzidas. É Natal outra vez. Já? Já passaram doze meses?
Voltaram as noites em que se tornou quase impossível adormecer, por tanta luz que insiste em me cair em cima. Não incomoda o meu caro Jonas, o meu cão. O meu querido companheiro não se incomoda com nada, no fundo. Também ele já desistiu de se aborrecer e de sofrer.
Para quê?

Ele limita-se a acompanhar-me a ver-te passar, carregado de sacos, carregado de "bem parecer", carregado de falsas boas intenções, para cumprir a tradição, como lhe chamas.
"Oh, o Natal é das crianças, temos que lhes oferecer alguma coisa para as alegrar." Pois claro que sim. Na tua mente, o que importa são os valores que te ensinam na televisão, não os que te pregam na igreja e dentro de paredes do "parecer bem". O que importa sim, é o número de oferendas os teus descendentes têm para desembrulhar, para saberem que o Natal é aquela época do ano em que se gasta dinheiro que não se tem, para cumprir tradições em que não se acredita, e para "parecer bem".

Tenho pena de ti e dos outros iguais a ti, Pena, não inveja, como em anos passados me deixei ter, Agora que conheço na pele a dor que é não ter um Natal partilhado com risos e amor, tenho pena de ti que me olhas com pena, ou desprezo, ou indiferença.

Vivo na rua, da caridade alheia, da amizade de quem não me conhece, de quem apenas quer dar, durante um ano inteiro, aquilo que tu nem nesta altura de "parecer bem" me queres dar.
Eles e elas sabem bem o que é esta altura, e sabem que esta altura do "bem parecer" só faz sentido se multiplicada pelo resto do ano, e se for vivida e aplicada em plenitude e honestidade.
Prefiro viver aqui, no meio do cartão, do frio, do desconforto, com o Jonas, com os meus companheiros de infortúnio, os meus companheiros de rua. Os sem-abrigo como tu nos chamas...

Sem-abrigo de tecto
Sem-abrigo de protecção
Sem-abrigo de tudo

Tão diferente de ti que és um abrigado dos valores, porque com eles não tens contacto.
Desejo-te que te deixes desabrigar, para que os recebas, e para que te tornes em algo que sei que nunca te tornarás...

Lamento-te.
Bom Natal, te deseja este teu desprezado

Sem-Abrigo

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