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domingo, 7 de dezembro de 2014

Confesso

Deixa-me falar. Eu preciso falar. Preciso que me ouças, que me leias, que entres na minha alma e aceites o que te quero dizer. É-me difícil explicar e fazer com que me entendas neste momento em que abro o meu íntimo e me confesso a ti.

Eu sei que errei, te massacrei, que te fiz chorar. Sei que te roubei a paz dos teus dias, e o sonho das tuas noites. Admito que sou um ladrão que se esgueirou por dentro de ti, te roubou a alma e te escureceu o coração para todo o sempre, e que tenho que ser julgado por tamanho crime.

Sou um canalha. Um miserável. Sou aquele que te corrói, ainda. Sou a eternidade marcada para todo o sempre na tua existência, e não mereço perdão.

Fui aquilo que és. E estupidamente achei que seria justo que sofresses na pele o que eu sofri. Conquistei-te de forma limpa porque, no fundo, te queria. Quis-te só para mim, mesmo sabendo que nunca seria teu, e escondi-te isso. Não pensei que merecias saber toda a verdade, e deixei-te crer que a sabias, de facto. Fui um actor irrepreensível e captei a tua energia, suguei-ta até não teres mais por onde dar e te sentires impotente. Até não mais aguentares e gritares “basta!”. Até que não conseguisses mais remar sozinha e desistisses…

Tornaste-te fria, fechaste tudo o que em ti existiu de bom, tudo o que foste de luz para quem te rodeou e rodeia, porque fui quem te retirou a capacidade de ser feliz e autêntica. Por isso te tornaste uma perfeita cópia de mim, um caso de estudo do que não se deve ser enquanto pessoa, de como não agir perante quem apenas nos quer bem. Uma caçadora de cabeças sem misericórdia, sem perdão, sem espaço para o erro. Uma perfeita assassina criada por mim, pelo meu egoísmo, pela minha própria frieza e pelo meu sofrimento, que te foi tão alheio.

Estou ainda para descobrir como nos tornámos assim, tão insensíveis que deixamos de pertencer a este plano existencial, para nos tornarmos míseros demónios que se alimentam da dor de outrem, sem culpabilização e sem recompensa aparente. Que exímia capacidade esta que nos foi conferida por quem nos fez. Que seres somos nós que nos transformámos em viúvas-negras, autênticos canibais que se alimentam do que o outro tem para oferecer sem sermos descobertos enquanto pecamos sem vergonha, ou punição.

Tenho perfeita consciência que nada posso fazer por ti, para te ajudar, a não ser dizer-te tudo da única forma que sei. Pensando, imaginando que me ouves a milhares de quilómetros de distância. Estamos assim afastados por um oceano de água feito, e por anos-luz de distância eternamente presente entre nós. Confesso: não suportei mais a ideia e a realidade de estar na mesma cidade que tu. Faço-te mal apenas por respirar o mesmo ar que tu, e não preciso da tua imagem diariamente a lembrar-me da merda que te fiz comer, do ser desprezível que sou, do ódio que mereço que me entregues.

Concordo contigo. É verdade que me faltou a coragem, me faltou nervo e simples discernimento para ser um homem digno desse nome. Choraste, gritaste, escreveste, e de mim nem uma simples resposta à única pergunta que me fizeste: porquê?
“Porque me arrancas assim o coração a sangue-frio, como se eu não fosse mais que um simples acontecimento sem importância que pelos teus braços passou?”, gritou cada uma das tuas palavras, cada um dos teus olhares na minha direcção, cada um dos teus sorrisos forçados.

Impotência tua.
Falta de coragem minha.
Incompreensão nossa.

Foi disto que se alimentou o tempo que nos separou, e ainda separa. Foi com sentimentos de fraqueza que me fiz recordação na tua mente, porque no teu coração fui proibido de entrar, mesmo que, para te responder, te mantenha as portas do meu íntimo abertas para que saibas, ao fim de todo este tempo, aquilo que deverias saber há tantas luas.

Desesperaste tempo demais. Mas acaba aqui. Termina aqui a nossa história mal contada, aquela que comigo viveste. Finaliza aqui a dor do teu desconhecimento. Confesso-me, finalmente, a ti com a única explicação possível, para a tua carência de respostas. Termina esta caça ao homem, de uma vez por todas, pois o assassino de vidas acaba de se entregar ao julgamento, há tanto tempo adiado.


Agora já sabes. Não espero perdão, não há absolvição possível para mim, nem castigo suficientemente grande para me ser infligido, por isso nunca to irei suplicar.

Apenas uma coisa te rogo: absolve-te tu de todos os pecados que julgaste ter cometido. Vive livre de qualquer culpa e destrói a tua memória da impotência que sentiste e na pele te marcou.



De quem nunca foi teu, Adeus.

In "Confissões", editado pela Editora Lua de Marfim (2014), texto da minha autoria

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