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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

E fuma

Fuma. Sentada, fuma.
Alheia-se de tudo o resto e procura a paz no cigarro. Não consegue, mas é a busca que dá prazer, não o resultado.
Indiferente ao vento que rodopia à sua volta, emaranhada numa camisola de lã que se esconde debaixo da manta. E fuma.

No horizonte, o sol inicia o seu ritual diário de exclusão do nosso olhar, e ela quer pensar que os problemas podem apanhar boleia com a estrela e excluir-se da sua vida. Mas não funciona assim. Assim, ela fuma.
As enxurradas de recordações cortam-na lá fundo, e ela chora. Chora muito, esconde-se na manta, deixando apenas os olhos visíveis. Os olhos molhados, que antes eram luz, agora são chuva. E o cigarro esbate-se ao sabor do vento, que já fuma mais que ela.
Mas ela não arreda da areia. Não se ausenta da sua praia. E acende outro cigarro.
E fuma.

E toda ela é turbilhão, hoje. Hoje, amanhã e enquanto for preciso.
E chora.
E fuma…

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