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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Renovação

Chamas-lhe a altura de fazer balanços.


Do que foi bom, do que foi mau, esperando com todas as tuas forças que o mau tenha passado de vez e que se abra uma estrada carregada de sucessos e alegrias, apenas porque achas que mereces.


Seria tão bonito se assim fosse... Mas não é.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Natal? Só se for para ti

Acordo da minha letargia diária, com o carinho do Jonas. O fiel companheiro desde há meses que nunca me abandona, me guarda, protege, e abafa o peso da solidão que esta vida de ruas me traz.

Está frio hoje, muito frio. O vento assobia aos meus ouvidos, e nem escondido no patim do prédio consigo afastar-me dele. O inverno sempre foi a parte mais infeliz do (meu) ano. Suponho que cada um dos meus companheiros de "vida sem-tecto" te dirá exactamente o mesmo.
Não tenho posição para descansar, embora os meus ossos há muito se tenham adaptado ao duro aconchego do chão, dos patins dos prédios, das estações de metro, da cruel rigidez das grelhas de aço que moram por cima das condutas que nos aquecem, tanta e tanta vez.

sábado, 20 de dezembro de 2014

A espera finda

Não quero saber quem és tu, agora.
Suponho que deixei de ter tempo para te (re)descobrir. Desculpa, isto não me saiu bem; deixei de ter tempo para ti, ponto final.
Prometeste mundos e fundos, mas não os entregaste à minha posse. E deixei de ter tempo para ti. Para quem tu me dizes ser. Para quem tu me prometeste ser.

Cansei-me, no fundo. Fartei-me de esperar que me acarinhasses, de cada vez que entravas no meu espaço. Desisti de aguardar as migalhas de doçura que caíam da tua toalha, para que eu as apanhasse do chão, como se isso fosse tudo o que havia para receber.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Dói

Dói-me.



Será que posso mexer-me? Não sei mais, porque me dói.
Afinal consigo mexer-me, consigo. Mas dói-me!

Sinto estas agulhas dentro de mim apontadas em todas as direcções. Perfuram-me em todos os cantos imagináveis.
São as minhas mãos que estão presas. São as minhas pernas que não se querem mover livremente, é o meu peito que mal pode abrir para deixar entrar o ar. É o meu pescoço que não roda no sentido que anseio.
Meu Deus, como me dói...

Aprisiono as minhas lágrimas e os meus gritos, não posso deixar que me vejam assim. O meu orgulho tolda-me o bom senso. Prefiro assim. Recuso dar parte fraca! Sou mais forte que isto... ou será que serei? Quanto mais serei capaz de suportar?

A minha alma perdeu capacidade de se abrir e deixar entrar o sol da esperança, da fé, da crença em dias melhores. Não consigo mais suportar uma existência de imobilidade...
Chegam dias em que preferia não estar aqui; mesmo que isso significasse perder as pessoas que amo. Preciso de paz, e ninguém ma consegue dar!

- Tu não sabes o quanto custa sentir isto!...
- Eu entendo. - diz-me
- Não, não entendes!! Sabes o que é quereres chegar ali e não poderes, quando ainda ontem o fazias apenas porque sim? Eu não consigo andar!
- Tem calma - diz-me, com os olhos molhados.
- Não posso ter calma... - enterrei a minha face nas minhas mãos - eu estou cansado de viver assim...
- Eu estou aqui. - e abraça-me.

Mas o abraço dela não abranda a minha revolta, a minha descrença.
Quero gritar, chorar livremente, mas não consigo. Embora apenas deixe que uma ínfima parte do meu sofrimento saia, já é demais.
Ninguém deveria conseguir ver-me sofrer assim, a ter pena de mim, a lamentar...

Mais que a dor é isso que

                                         me cansa!
                                         torna a luta tão dura!
                                         torna o sofrimento atroz!
                                         me faz chorar...

                                                               dói
              

                                                                              por fim, desisto... desisto porque me dói.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Pois

A Morte corre atrás de ti com a velocidade do ponteiro dos segundos, e tu esperas.

A Vida foge-te entre os dedos, e tu esperas.

Continua à espera, pois.

Apenas convém lembrares-te que nem a Morte nem a Vida esperam por ninguém.




Mas continua à espera, pois.












quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Respira-te

Inspira.
Expira.

Inspira-te.
Expira-me.

Arranca-me de vez da tua pele.
Queima os restos que guardaste.

Atira fora as migalhas que te dei.
Fecha o saco do lixo para onde me atiras.

Inspira.
Expira.

Põe fim à sobrevivência, e vive-te por fim.
Recusa-te existir e afirma-te, de uma vez por todas.

Grita “tréguas” a ti mesmo e desfralda essa bandeira branca de paz.
Enterra-te no campo de batalha, onde morreste, e renasce.

Inspira.
Expira.

Esquece o momento certo, pois o momento certo não existe senão na tua imensa imaginação.
Cria o “agora” pelo qual tanto clamas e exiges, e exige-te ser Maior.

Põe ao largo a doença que tanto chamas perfeita e cura-te.
Vê-te no reflexo do espelho e fala-te: “estou vivo”.

Inspira.
Expira.


                                                                       Finalmente

                                                                       …respira…

domingo, 7 de dezembro de 2014

Confesso

Deixa-me falar. Eu preciso falar. Preciso que me ouças, que me leias, que entres na minha alma e aceites o que te quero dizer. É-me difícil explicar e fazer com que me entendas neste momento em que abro o meu íntimo e me confesso a ti.

Eu sei que errei, te massacrei, que te fiz chorar. Sei que te roubei a paz dos teus dias, e o sonho das tuas noites. Admito que sou um ladrão que se esgueirou por dentro de ti, te roubou a alma e te escureceu o coração para todo o sempre, e que tenho que ser julgado por tamanho crime.

Sou um canalha. Um miserável. Sou aquele que te corrói, ainda. Sou a eternidade marcada para todo o sempre na tua existência, e não mereço perdão.

Fui aquilo que és. E estupidamente achei que seria justo que sofresses na pele o que eu sofri. Conquistei-te de forma limpa porque, no fundo, te queria. Quis-te só para mim, mesmo sabendo que nunca seria teu, e escondi-te isso. Não pensei que merecias saber toda a verdade, e deixei-te crer que a sabias, de facto. Fui um actor irrepreensível e captei a tua energia, suguei-ta até não teres mais por onde dar e te sentires impotente. Até não mais aguentares e gritares “basta!”. Até que não conseguisses mais remar sozinha e desistisses…

Tornaste-te fria, fechaste tudo o que em ti existiu de bom, tudo o que foste de luz para quem te rodeou e rodeia, porque fui quem te retirou a capacidade de ser feliz e autêntica. Por isso te tornaste uma perfeita cópia de mim, um caso de estudo do que não se deve ser enquanto pessoa, de como não agir perante quem apenas nos quer bem. Uma caçadora de cabeças sem misericórdia, sem perdão, sem espaço para o erro. Uma perfeita assassina criada por mim, pelo meu egoísmo, pela minha própria frieza e pelo meu sofrimento, que te foi tão alheio.

Estou ainda para descobrir como nos tornámos assim, tão insensíveis que deixamos de pertencer a este plano existencial, para nos tornarmos míseros demónios que se alimentam da dor de outrem, sem culpabilização e sem recompensa aparente. Que exímia capacidade esta que nos foi conferida por quem nos fez. Que seres somos nós que nos transformámos em viúvas-negras, autênticos canibais que se alimentam do que o outro tem para oferecer sem sermos descobertos enquanto pecamos sem vergonha, ou punição.

Tenho perfeita consciência que nada posso fazer por ti, para te ajudar, a não ser dizer-te tudo da única forma que sei. Pensando, imaginando que me ouves a milhares de quilómetros de distância. Estamos assim afastados por um oceano de água feito, e por anos-luz de distância eternamente presente entre nós. Confesso: não suportei mais a ideia e a realidade de estar na mesma cidade que tu. Faço-te mal apenas por respirar o mesmo ar que tu, e não preciso da tua imagem diariamente a lembrar-me da merda que te fiz comer, do ser desprezível que sou, do ódio que mereço que me entregues.

Concordo contigo. É verdade que me faltou a coragem, me faltou nervo e simples discernimento para ser um homem digno desse nome. Choraste, gritaste, escreveste, e de mim nem uma simples resposta à única pergunta que me fizeste: porquê?
“Porque me arrancas assim o coração a sangue-frio, como se eu não fosse mais que um simples acontecimento sem importância que pelos teus braços passou?”, gritou cada uma das tuas palavras, cada um dos teus olhares na minha direcção, cada um dos teus sorrisos forçados.

Impotência tua.
Falta de coragem minha.
Incompreensão nossa.

Foi disto que se alimentou o tempo que nos separou, e ainda separa. Foi com sentimentos de fraqueza que me fiz recordação na tua mente, porque no teu coração fui proibido de entrar, mesmo que, para te responder, te mantenha as portas do meu íntimo abertas para que saibas, ao fim de todo este tempo, aquilo que deverias saber há tantas luas.

Desesperaste tempo demais. Mas acaba aqui. Termina aqui a nossa história mal contada, aquela que comigo viveste. Finaliza aqui a dor do teu desconhecimento. Confesso-me, finalmente, a ti com a única explicação possível, para a tua carência de respostas. Termina esta caça ao homem, de uma vez por todas, pois o assassino de vidas acaba de se entregar ao julgamento, há tanto tempo adiado.


Agora já sabes. Não espero perdão, não há absolvição possível para mim, nem castigo suficientemente grande para me ser infligido, por isso nunca to irei suplicar.

Apenas uma coisa te rogo: absolve-te tu de todos os pecados que julgaste ter cometido. Vive livre de qualquer culpa e destrói a tua memória da impotência que sentiste e na pele te marcou.



De quem nunca foi teu, Adeus.

In "Confissões", editado pela Editora Lua de Marfim (2014), texto da minha autoria

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Sonho-te tanto quanto te sinto

Tenho calor, hoje.
Não me sinto bem aqui!! Vou para a varanda!
Avanço de tronco nu em direcção à imagem que se vislumbra rectangular de onde me encontro.
Atiro a t-shirt branca para cima da minha cama, e instintivamente, acendo um cigarro. Mais um cigarro.

Agora que chego à varanda, consigo cheirar-te. Inalo o teu perfume. Sei que assim é porque cheiraste sempre a cidade. A Lisboa.
Levo o cigarro à boca uma e outra vez, e… cheiro-te.

Olho-te.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Venda


- Fecha os olhos. – segredou-lhe ao ouvido
- Está bem…
Ela confiou nele. Chegou o momento.

Atou a venda com a mesma suavidade que lhe toca nos cabelos, sempre que a beija.
Ela inspira profundamente quando ele ata aquele nó. Inclina a cabeça para trás no mesmo fôlego que abre a boca.
Os lábios dela estão rosados, ansiosos, algo assustados; para que ela se acalme, beija-os calma e profundamente.

- Não tenhas medo. – sussurrou-lhe.
- Está bem…
- Confia em mim. Eu cuido de ti, prometo…

Quase que ele sente ser a primeira vez que a vê assim. Despida de trapos, de vergonha, de convenções. Por isso ele demora todo o tempo do mundo a observar cada contorno do corpo dela. Perde-se uma e outra vez, e recomeça.

Apesar de se sentir maravilhado a observar, isso nunca lhe foi suficiente. Não com ela.
Precisa tocar. Beijar. Ouvir. Acariciar.
Ela contorce-se de uma maneira fantástica, aos olhos dele. Sente prazer, medo, desconhecimento. Prende-lhe as mãos na cama, com a outra faixa. E ela deixa.

- És louco!... Mas faz o que quiseres…
Não evita sorrir. Mesmo que ela não veja o que ele faz, é como se ela sentisse cada movimento dele porque lhe retribui o sorriso, enquanto morde o lábio.

Enquanto ele passeia as mãos pelo corpo dela, abraçando-a, beijando peito, a barriga, o umbigo, segura cada centímetro que acaba de beijar, cada recanto de pele que ela tenha.
A respiração torna-se sôfrega, como se todo aquele prazer já não coubesse dentro dela. Ela precisa deixar que saia de dentro de si, tanto quanto precisa de prazer novo entrar no seu santuário.

O gemido chega.
Os sons que saem da boca dela reagem às carícias dele.
Contorce o corpo cada vez mais, e cada vez mais ela precisa dele de outra maneira.
No meio do prazer, no meio do desejo, o pensamento dela é sempre o mesmo:
- Apeteces-me! Apeteces-me! Sempre!

E como se ele conseguisse ler o pensamento com a mesma clareza que lhe lê o corpo…

… ele faz-lhe a vontade...

                                                           …e satisfaz-lhe a vontade…



                                …por fim.



domingo, 30 de novembro de 2014

Apeteces-me

Não sei como me deixei chegar a este ponto...

Não consigo entender esta minha necessidade de ti.
Esta sede incontrolável da tua essência! Esta saudade eternamente presente! Que saudade tão grande esta que em mim habita, que é tão grande quanto a ânsia de apenas te olhar.
Não consigo escolher de que forma te quero porque te quero de todas as maneiras possíveis, e isso tira-me a coerência...


Não consigo chamar-te "vício". É redutor, entendes?
Chamo-te de incontrolável vontade, que achas? Gostas desta minha definição de ti?
Ou talvez até te chame de "maravilhosa droga".
Sim, eu sei; as drogas são más, e tu também és, que julgas?! Tens tanto de bom, quanto de mau, confesso-te. Como se não soubesses...

Claro que sabes! A forma como me olhas, como te mexes, como me fazes mover... tudo confirma que o sabes!
Deitada na cama olhas-me com toda essa segurança. Cada movimento do teu perfeito corpo confirma-o,  Vives, respiras, amas sabendo perfeitamente que és um Anjo com alma de Diabo... és irresistível e sabe-lo. Odeio-te por isso!

Hum... mas é tão bom inebriar-me de ti!!
Com loucura, sem consequências, e sem censuras... Hum, como me sabes bem...

És simplesmente a droga perfeita... tão perfeita...

      Eu inspiro-te,
                                                    eu insisto que invadas todo o meu ser,
                                                               
                                                           eu sinto, impávido e sereno, enquanto incendeias o meu sangue,
                                                 como me secas a boca,
                   
                                                              como me roubas a vontade de existir

                                                              se existir significar não estar contigo.


Explica-me, por favor. De uma vez por todas explica-me!




Porque fazes tu isto?                                                            Porque te deixo eu fazer isto?!



                                       Simplesmente...



                                                        ... necessito-te!
                                ... desejo-te.
... apeteces-me...

apenas isso: apeteces-me... sempre.


....




quinta-feira, 27 de novembro de 2014

E fuma

Fuma. Sentada, fuma.
Alheia-se de tudo o resto e procura a paz no cigarro. Não consegue, mas é a busca que dá prazer, não o resultado.
Indiferente ao vento que rodopia à sua volta, emaranhada numa camisola de lã que se esconde debaixo da manta. E fuma.

sábado, 22 de novembro de 2014

Viagem

Já te pensei tanta vez que perdi a conta ao número de viagens que fiz até junto de ti.
E sempre que até aí viajo, a recepção é a mesma: porta fechada e um “encerrado para remodelação” que não desaparece.
A viagem de volta é feita de uma mesma forma, de todas as vezes. A sós, a pensar no que poderia ter sido a nossa conversa, a nossa troca de galhardetes sobre o nada que envolve os nossos tudos individuais.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Chove muito


Chove.
Hoje chove muito.

Complicam-se as sensações, e misturam-se as emoções e acabamos por nos deixar enveredar num novelo de confusão. Não nos entendemos, e quase não nos reconhecemos ao espelho quando nos confrontamos.
E quando, depois de pensar em tudo isto, não nos resta grande alternativa senão chover. E alguns de nós são autênticas máquinas de chuva.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Beija-me

- Beija-me.
- Não posso. – responde ela.
- Porquê? – segurou-lhe a cara com ambas as mãos, ao mesmo tempo que mergulhava no olhar assustado dela.
- Porque no momento em que te beijar, torno-me tua, e não mereço isso.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Embrulho

Pensa no quanto te doeu.
Pensa.
Imagina a imensidão de raiva que ali morou, naquele momento.
Imagina.
Mergulha na dúvida que te assaltou, e roubou o sono.
Mergulha.

sábado, 8 de novembro de 2014

Admirável Mundo Escrito nasceu...

Começar um blog é uma aventura que, confesso, não me é estranha.
Tempos houve em que passava muito tempo a viajar pelas páginas da blogosfera, ao mesmo tempo que mantinha um espaço reservado para mim, que um dia deixou de fazer sentido manter. 
Esse facto não me retirou vontade de escrever; antes pelo contrário.